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A Aranha Punk
(Glauco Mattoso)

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O Dix Editorial, da Annablume, lançou a série "Mattosiana". O volume 2 chamado “A Aranha Punk” foi editado em novembro do ano anterior e lançado no mês seguinte. O primeiro da série foi “Faca Cega”. Glauco Mattoso cria inusitados contextos aos temas propostos pelo título e faz também uma homenagem a Fernando Gonzales, inventor do personagem Níquel Náusea (das Histórias em Quadrinhos) e ilustrador da capa deste livro.
O Punk que surgiu entre ambigüidades e pastiches, contra a publicidade hipócrita através de uma atitude rebelde da juventude trabalhadora, foi a maneira como os jovens entenderam de rebelarem-se contra a ideologia social das massas e da política radical, além da subversão em relação ao rock original.
Nesse sentido, havia o intuito de aproximar platéia de público (não se pretendeu dissolução, mas revezamento, alternância de papéis) e, em aversão a esse abismo, apenas três acordes foram adotados para simplificar as músicas. Além disso, nesse movimento deflagra-se a agressividade inerente a quem não está conformado, por meio de deboche dos valores políticos carregado de sarcasmo e causticidade.
Ao sistema capitalista foi então revelada uma forma de auto-expressão individual que não se rende às reproduções do processo industrializado de esvaziamento. Assim também é Glauco Mattoso e seus sonetos que desestruturam todas as elucubrações acerca de seu trabalho, lançando-se sempre em novas empreitadas poéticas.
Dessa vez, o tema sobre o qual se debruça o autor é toda espécie de animais aversivos como aponta o título — aranha —, mas não só, o poeta constrói magistralmente cenas em que estão protagonizando escorpiões, carrapatos, insetos e tudo quanto couberam das bizarrices arquitetadas por Glauco.
O volume está dividido em quatro partes: O gênero e as espécies, O gênero e os tipos, O punk e a gorda e Tiradas das tiras. O primeiro soneto do livro é uma hilária idealização da tal aranha com todos os índices estéticos do estilo punk de se vestir.

Soneto da aranha punk [1455]

Se caricaturada, ela teria
seus pêlos em estilo moicano,
formando um topetão que se arrepia
da cara até o bundão, sem couro ou pano...

Porém, em cada pata, calçaria
seu preto coturninho, cujo cano
lhe chega até o joelho. Nada esquia
de pernas, se assemelha a um gordo humano...

[...]

Entre mais de dois mil sonetos elaborados durante oito anos, Glauco, com sua mordacidade que alcança diversas esferas, entre elas a política, a sociedade e a pornografia, lança mão dessa faceta em:

Soneto da bicharada tarada [768]

Cantaram já em soneto a bicharada
todinha, até barata e taturana,
morcego e aranha. Agora, o mais sacana
dos bichos não inspira, em verso, anda.

[...]

“Piolho das virilhas” é chamado.
Aos íntimos é “chato”, e é no pentelho
que sente-se à vontade, bem ao lado

dos órgãos genitais. Só lhe é parelho
na tara a na coceira outro safado:
o bicho que, no pé, bolina o artelho.

Na parte um, os bichos (espécies) são protagonistas; na dois, entram as pessoas (tipos). Entre a miscelânea de rigor formal e assuntos grotescos, os sonetos são criados com a autenticidade mattosiana que, por participar da contracultura, imprime em sua obra o paradoxo e as transgressões:

Soneto do miolo mole [1467]

Balcão da lanchonete. Em pleno papo,
se sentam dois bancários. Do outro lado,
almoça um punk, e suja guardanapo
atrás de guardanapo, lambuzado...

[...]

Apara na colher, de novo engole
e torna a vomitar a massa mole,
até que a dupla saia e perca a “panca”...

O poeta que se inventa e nomeia-se, em alusão ao denominativo glaucomatoso (portadores de glaucoma) e em homenagem a Gregório de Matos, é o nosso GM contemporâneo, que explora incansavelmente o decassílabo. O soneto é uma maneira que Glauco encontrou de trabalhar mnemonicamente com o verso independendo de sua leitura e registro.
Assim, pode fundir memória, som e imagem no desenvolvimento de raciocínios. Através de seus sonetos, o poeta constrói uma história de amor entre um punk e uma gorda. Em tom satírico peculiar e com um enredo hilariante o relacionamento vai se solidificando no decorrer dos versos.

Soneto para um papo decisivo [1926]

Enfim pinta uma chance, quando a entrega
duma nova encomenda ele ali faz.
A gorda, ao recebê-la, a mão lhe pega
e fala olhando os olhos do rapaz:

“Menino, que mão fria! Cê não nega
aquele dito, né?” E a mão lhe traz
mais para perto. Arisco, ele escorrega,
mas cede, agradecendo a Satanás...

[...]

Enfim, a parte quatro é dedicada ao rato Níquel Náusea, personagem de Fernando Gonzáles criado em 85. Este que vive em um esgoto e tem como amiga a Fliti, uma barata que adora inseticida. O quadrinhista que também recorre a um humor ácido recebe uma pertinente homenagem, tendo em vista a grande sacada de Glauco em inserir Níquel Náusea em “A Aranha Punk”.

Soneto para um amor ratônico [1911]

O rato ansioso está: vai ver a rata
por quem se apaixonou! Não há no gueto
uma camudonguinha mais cordata,
gentil e delicada, poro afeto...

Encontra a namorada e, por bravata,
vai logo se gabando que um soneto
acaba de escrever, no qual retrata
a prova dum amor nobre e seleto...

[...]

Glauco encerra esse volume ratificando sua maestria e o acerto em abordar assuntos sociais, políticos, pornográficos por meio de seu toque singular, aproximando sempre os temas e seu trato com a linguagem ao cotidiano de forma inovadora, aplicando-lhe o dedo nas feridas com suas inusitadas teias e armadilhas.



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