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É isto um homem?
(Primo levi)

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Primo Levi disse certa vez que "só os piores sobreviveram aos campos de concentração", depois de lermos seu livro entendemos o porquê: é descrito, em suas páginas, o emprego do aniquilamento do humano como método de extermínio, não, não foram as câmaras de gás, os fuzilamentos aleatórios, a fome ou a doença que exterminaram as vítimas do holocausto; estes meios apenas deram fim aos corpos, à parte física que compõe um ser humano, pois, antes disto, daqueles prisioneiros já tinha sido expurgada aquela fração abstrata ou incorpórea que nos faz humanos. A humilhação sórdida e constante, a fome permanente e torturante, a jornada extenuante de trabalho, o cotidiano marcado pela incerteza mais assutadora pois que relativa à própria sobrevivência a cada dia, os castigos físicos perpetrados pelos "kapos", o nome e a existência reduzidos a um número tatuado na pele - eis, portanto, o método pelo qual os prisioneiros foram desprovidos da sua humanidade, para restarem como resíduos físicos dos seres que tinham sido. Daí que, quanto menos caráter, quanto mais apego mesquinho, individual e egoísta à vida, mais chance de, com um pouco de sorte, sobreviver ao horror. O que falar então dos carrascos? Ora, estes já também não eram mais humanos quando da chegada dos prisioneiros, mostra-nos o livro. Mobilizados pela doentia tese nazista da supremacia de uma raça sobre toda a humanidade, impulsionados pelo ódio e instruídos para a mais bruta demência, os carrascos, já então esvaziados de sua própria humanidade, não eram mais capazes de reconhecer um semelhante entre os prisioneiros - ciganos, judeus, deficientes físicos ou  mentais, opositores ao regime, testemunhas de Jeová, homossexuais - tratados como bichos por monstros. Comumente, ouvimos dizer que os sobreviventes dos campos de concentração reconhecem que algo de si pereceu ali, podemos compreender, assim, que seus corpos sobreviveram ao horror, mas suas almas não escaparam totalmente do aniquilamento, sua humanidade sempre se ressentirá de uma falta, de um certo vácuo que as espreita. A pergunta do título "é isto um homem?" se refere tanto à massa dos prisioneiros quanto aos carrascos e a resposta é , talvez, "sim"; pois a natureza humana é tão precária que um homem pode ser levado à mais completa degeneração do seu caráter humano - como eram os nazistas e seus simpatizantes - e, ainda assim, ser pai, mãe, filha ou filho calorosamente dedicado ou, como mostra o livro, planejar as férias, preoupar-se com o que usar no Natal... isto é a banalização do mal, conforme denunciou Hanna Arendt. Também os prisioneiros ainda tinham alguma humanidade, não perante os carrascos, mas entre alguns daqueles homens atormentados pela mais absoluta degradação havia ainda resquícios de alguma humanidade quando, já perto do final mas sem saberem disso, tentam providenciar alguma comida, algum conforto para os doentes, tentam, enfim, unir as últimas forças para o bem do grupo. Isto pode marcar, talvez, o início do resgate parcial de sua humanidade, quando agem pelo grupo, pelo semelhante também, pois só assim é que nos identificamos como seres humanos - quando reconhecemos o outro, o não eu, como semelhante e podemos, então, refazer o laço que nos salva do aniquilamento. Primo Levi morreu em 1987, aos 68 anos, quando caiu de uma escada em sua casa, alguns acham que foi suicídio, tragado que foi por aquele vácuo remanescente na sua alma quase aniquilada, seja como for, ele morreu como um homem, não como um bicho.



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