Eu Nóia
(Eduardo Ferreira)
A prosa "Eu Nóia" é um passeio pela mente de um poeta submerso nos efeitos produzidos por "viagens químicas". Uma viagem que contrasta a alucinação com a lucidez, a imagem com o pensamento, seja no metro quadrado de um recinto - de um limite psicológico - ou seja nas andanças à esmo - à procura de drogas pelas ruas de Cuiabá. Cuiabá, quintal do mundo, onde todas as referências culturais desaguam. Docidade (como diz o poeta, narrador em primeira pessoa) que transige, mas que também sufoca, conforme o estado psíquico daquele que vive as experiências. Experiências urbanas, caóticas, agonizantes.
A experiência que faz surgir a expansão do pensamento. Pensa-se sobre a política contemporânea, sobre a literatura, sobre a cidade, sobre o prazer e a angústia do consumo de tóxicos, sobre a fixação pela palavra. Constituindo um jogo de esclarecimento e confusão. A imaginação e a memória coadunam ao ritmo da passagem do tempo (Cronos). "Eu Nóia", publicado em 2006, confere voz ao transtorno e a sensibilidade da dependência química.
Capítulos curtos, parágrafos começando com minúsculas, ritmo alucinante num pensamento intermitente que corre de um assunto para outro. Algumas referências aos beatnikes, a Kafka, à ferocidade do rock entre outros. A prosa de Eduardo Ferreira equilibra crítica e poesia com eficiência; é um provocante texto que perfaz o encontro de assuntos existenciais com problemáticas sociais que fustigam o país sem piedade. Tudo que passa pelo "olho mágico" do ser nóiado, que transfigura-se na própria nóia, é captado, regurgitado, metamorfoseado em palavras ácidas, contundentes, diligentes com o nosso cotidiano de fúria e sofrimento. Nóia que cresce pela cidade observando, repudiando, gritando e sufocando, mas que confirma na palavra o desespero, a "fissura" em se expressar.
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