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Eu e o Governador
(Adelaide Carraro)

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Eu e o Governador - Adelaide Carraro

Quando era menina lembro-me de ouvir falar desse livro e do alvoroço que causou na cidade de SP quando de sua publicação. Seu efeito é ainda mais contundente por tratar-se de obra autobiográfica que usa tintas fortes para contar a luta pela sobrevivência do ex-tuberculoso numa sociedade complexa.

Adelaide é a menina órfã que ... tendo perdido o pai numa briga de galo....cedo amadurece no contato com funcionários e autoridades, em sua peregrinação por um emprego público. Em sua caminhada perde a saúde, a inocência, tenta o suicídio, busca a elevação social pela única via que conhece: o favor e o apadrinhamento.
As famosas “cartinhas de apresentação” eram nessa época ferramentas comuns para admissão no serviço público. Tentando galgar os degraus que a levassem ao funcionalismo via apadrinhamento ela perde virgindade e inocência, sendo jogada em braços e ambientes infectos, onde a mesma Secretaria que deveria encaminhá-la é muitas vezes a responsável por sua desonra e afronta.

Um dia conhece um homem digno (Brigadeiro) que, finalmente, a apresenta ao governador do estado, sendo então nomeada. Na área de Saúde, passa a viver instantes de medo e asco frente às cenas de horror a que são submetidos os pacientes. Ausência de banhos, falta de higiene ou lazer em lugares tristes, escuros, sórdidos, às vezes submetidos a atos de tortura explícita, havendo pouca diferença de tratamento entre pacientes e detentos. Em sua vivência profissional passa por três hospitais públicos. Em cada um deles o triste contato diário com ...mau cheiro, péssimas condições gerais de higiene dos prédios, sangue misturado aos gritos de dor.
Apesar de tudo, aos pacientes a pior notícia era receber alta. Tolhidos pelo desespero do abandono, sem perspectivas de refazer suas vidas lá fora, muitos buscavam o criminoso comércio da compra de escarro positivo, outros tentavam o suicídio, outros encontravam a morte no abandono das ruas na cidade grande.
Por inúmeras vezes Adelaide foi portadora do desespero dos tuberculosos na atenção a seus pedidos mais básicos e na delação dos maus tratos por eles sofridos, servindo de interlocutora entre os doentes - que não teriam como fazer ouvir suas vozes - e o governador, levando até ele seus clamores.

Se dividirmos a leitura em quatro partes, teremos na primeira parte a infância pobre, porém feliz, no convívio com os irmãos no interior. Na segunda parte a menina órfã contrai a doença que vai determinar seu destino. Em seguida vem a desonra e luta pela sobrevivência entre palácios, pompa e iniquidade. Ao final, a trágica morte da melhor amiga, vítima cruel de um sonho desfeito e de outra forma de discriminação: o mito da virgindade.

A obra é narrada em rica e colorida linguagem, onde os fatos se sucedem, nem sempre em ordem cronológica, mas aleatoriamente, baseados em lembranças afins e dinâmicas. Entre outras coisas, mostra que grande beleza física da mulher nem sempre representa uma vantagem no competitivo (e desumano) mercado de trabalho.



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