Substância e acidente
(Dennys Robson Girardi)
Os medievais caracterizavam substância como “ens in se” e acidente como “ens in alio”. A palavra acidente significa o que cai sobre (ad-cadere). Em grego substância se diz “hypokeímenon” e acidentes “symbebekóta” (plural, neutro).
Usualmente substância é entendida como algo que está debaixo de aparências, como que um núcleo imutável, e acidente como o que cai sobre esse núcleo imutável, como algo mutável, passageiro. De acordo com o modo como Lúlio utiliza os termos substância e acidente parece que ele está inclinado a entender essas palavras na direção que os gregos acenavam quando diziam “hypokeímenon”, isto é, o que ali está deitado, estendido, bem assentado (“keisthai”) e “symbebekóta”, os concomitantes, os que acompanham em diversas variações concretas esse assentamento.
Os medievais estavam mais próximos à compreensão da substância no seu ser do que na sua representação enquanto um núcleo, atrás, escondido debaixo das aparências, ofuscado pelos acidentes.
Tentemos intuir o ser em sua pré-jacência, no seu se perfazer como identidade, como peso da auto-identidade. Colocando-nos em frente de uma montanha rochosa, que se estende ao céu aberto. Aqui, atônitos, exclamamos: Que imensidão, que grandeza! Essa grandeza e imensidão não está querendo apenas constatar a quantidade métrica, o tamanho em metros, dessa paisagem, mas sim abrir-se à substancialidade, a intensidade de assentamento daquela montanha, o em sendo da montanha como montanha, a mais própria identidade da montanha.
Imaginemos, então, que ao sopé da montanha viva um casal de velhos, experimentados na vida, que ali cultivam sua existência, que ali cultivam sua propriedade, seu jardim, sua horta, sua casa, seus animais. Este casal, na fidelidade da vida, depois de sua árdua luta, agora vivem numa pujança de bem-querença, e longos anos residem bem assentados como pessoas em sua mais profunda recordação. A montanha, o céu, o tempo e o espaço, o casal, a sua propriedade, jardim, a horta, sua moradia, em fim tudo, toda a paisagem e seus detalhes e componentes concomitantes estão impregnados, prenhes do peso, do assentamento de ser cada qual ele próprio na sua auto-identidade, na sua substancialidade. Cada vez, cada em sendo, assentado na sua identidade própria e viva, mesmo totalmente diferenciada entre si, tem o modo de ser de “hypokeímenon” e seus “symbebekóta”, o caráter ontológico de “in se”. A configuração, o feitio, de cada ente pode ser total e completamente diferente, mas o seu assentamento em si, seu em sendo, é sempre o mesmo como profundidade do ser, como pregnância, como amplitude, como a liberdade da e na auto-identidade do seu ser. O prefixo “hypo” parece acenar para essa profunda imensidão do ser, e não tanto para o que está de baixo, atrás de uma superfície.
Portanto, substância não indica qualidade, quantidade, modalidade de um algo, nem um pano de fundo ou espaço vazio de onde provêm os entes como blocos de coisa; nem acidente o que cai sobre esse bloco como acréscimo passageiro, mas sim a concomitância diferencial inerente aos entes que estão impregnados desse assentamento da substancialidade no ser.
Desse modo, nos termos “hypokeímenon” (substância) e “symbebekóta” (acidentes) encontramos a mesma imagem de vastidão, de imensidão, de profundidade, como mar abissal em inúmeras concretizações de ondas, gotas d’água, como uma sinfonia cósmica, com suas percussões e repercussões, em notas, grupos de notas, pausas e acordes, que antes utilizávamos para intuir o princípio-binômio matéria-forma.
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