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Na FUSÃO DO “EU” COM O MUNDO, A DESCOBERTA DE SI
(Márcia Elizabeti Machado de Lima)

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  NA FUSÃO DO “EU” COM O MUNDO, A DESCOBERTA DE SI 
    As circunstâncias exteriores e a trama narrativa têm importância secundária nos contos e nos romances de Clarice, que expressam uma visão profundamente pessoal e existencialista do dilema humano. Sua ficção transcende o tempo e o espaço, suas personagens, postas em situação de limite, são com freqüência femininas e na busca de dar sentido para a vida, “adquirem” consciência de si mesmas e “aceitam” seu lugar num universo arbitrário.
    Ao tomarmos como objeto de análise o conto Amor, do livro Laços de Família, que conforme o próprio nome indica, nos remete à idéia das cadeias existentes no universo familiar estereotipado, temos a figura de Ana, uma personagem repleta de ambigüidade, que nos é apresentada no espaço de um bonde, onde procura conforto “num suspiro de meia satisfação”. 
    Para Ana, o espaço intimo do lar era seu porto seguro, enquanto tinha as mãos ocupadas pelos afazeres domésticos que a impediam de pensar para além dali, não corria o risco de inquietar-se e perceber a própria insatisfação com o mundo de aparências que ela mesma construíra, afinal “com o tempo seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem”. Abafando assim, com a aparência harmoniosa do exterior, a exaltação perturbada do seu interior, sentida antes de ter o lar, resignando-se ao ponto de achar que “sem a felicidade se vivia”. 
    A ambigüidade da personagem manifesta-se, e mesmo a narradora afirmando que o lar dera a Ana a sensação de sentir a raiz firme das coisas, quando as obrigações domésticas estavam cumpridas “seu coração se apertava um pouco em espanto”. Mas, Ana foge de si mesma na hora mais perigosa da tarde, à procura de algo no espaço externo que sufocasse o que poderia arrebentar no espaço interno, para novamente se ocupar dos filhos e do marido na tranqüila vibração da noite. Mesmo na tranqüilidade há vibração, de nenhum modo Ana está a salvo. O antagonismo está sempre presente, o conflito pode surgir a qualquer momento.
     Por ironia, é justamente no espaço externo, de fuga, que Ana confronta-se com o que deverá desencadear o processo epifânico, que se não resultar numa profunda modificação, ao menos será o primeiro tijolinho da construção de uma nova mulher, sensível às imperfeições e injustiças que fazem parte da vida existente fora do seu pequeno mundo. É no espaço de um bonde que mesmo tendo trilhos, que sabemos serem estreitos e definidos, ele vacilava, (conotando o próprio estado de espírito da personagem) e entrava em ruas largas, alternando-se em arrastar e estacar. 
     No mesmo movimento de alternância do bonde, está o cego que Ana em choque visualiza, e parece que ao mastigar chicles, alterna “o sorrir e o deixar de sorrir como se a estivesse insultando...”, representando a liberdade de escolha interior, que ela não se sentia preparada para exercer. Fato que causava náusea, tornando o mundo um mal-estar. Mas a náusea era doce, a crise viera, ela sofria espantada, mas ao mesmo tempo sentia um prazer intenso. É a figuração da atividade aniquiladora da consciência, que segundo Sartre, desemboca necessariamente na náusea.
    Elementos simbólicos e paradoxais, representativos do turbilhão de sentimentos experimentados por Ana através do impacto sofrido com a visão do cego, e da possibilidade de saída da redoma em que vivia. Sente-se fraca, despreparada para ver ruir diante de seus olhos, tudo o que construíra.
Ao descer do bonde, Ana caminha para o Jardim Botânico, espaço repleto de natureza, que contribui para o aflorar de sua sensibilidade. No entanto cercado por muros altos e amarelos, como sinais da barreira e do medo que ela terá que vencer para encarar a nova realidade, que ao mesmo tempo era fascinante e dava nojo. 
    Nessa confusão de sentimentos Ana corre desesperada de volta para casa.  Abraça o filho como se apelasse para si e para ele que o amor maternal falasse mais alto que o fraternal, no seu íntimo tudo se embaraça num jogo entre o eu e o não-eu, o ser e o não-ser, o equilíbrio e o desequilíbrio .
Como narrativa moderna, aberta, simbólica, podemos apenas sugerir interpretações do desfecho do conto, em que se mostra ou se considera a situação da personagem após a experiência do evento epifânico, em que mesmo tendo arrepios pela perspectiva do novo, aos poucos, no contato com o velho, o turbilhão de emoções vai se acalmando, e Ana realiza-se com a imagem da família rodeando a mesa.
Sente medo de perder tudo isso, com a possibilidade de aceitar se fundir ao mundo, e intimamente debatia-se: Abriria mão da dedicação exclusiva de mãe e esposa? A apreensão era enorme, o novo assustava. 
    Finalmente, aparece a figura masculina, no papel do marido, “protetor”, ou impedidor da realização existencial da personagem, que a segura pela mão, e a leva para o quarto, representação máxima do espaço interior, de proteção dos perigos do exterior, já que lá fora tudo é demasiado grande, sem medida, é aconchegante saber que do lado de dentro tudo está na medida do ser íntimo. Ana prepara-se para dormir, é mais fácil aconchegar-se nos braços do marido e esquecer o mundo lá fora.
     Ficam as interrogações: seria possível Ana apagar, de fato, os acontecimentos da tarde, ou seria marcada para sempre por eles? Ana já não demonstrou estar desgostosa das coisas que a cercam? Pode ter sido esse o primeiro passo para a descoberta de si mesma.
 
 



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