Estudo sobre a histeria
(Sigmund Freud)
Trauma e Fantasias Inconscientes na obra de Freud “Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir fica convencido de que os mortais não conseguem guardar nenhum segredo. Aqueles cujos lábios calam denunciam-se com as pontas dos dedos; a denúncia lhe sai por todos os poros” . Da verdade Última a Mentira PrimeiraSe para a Viena de 1900 era difícil assimilar a novidade da descoberta freudiana, para o próprio Freud não deve ter sido livre de complicações. Dar conta do que na clínica indicava a implicação entre a manifestação do sintoma histérico e uma cena de sedução na infância, surpreendentemente apontando para a figura paterna, era uma constatação que sem dúvida colocava em cheque a moralidade não apenas dos vienenses, mas inquiriam á lei universal do incesto. Freud, no entanto sabia que a sua busca implicava em certo preço o que deixa claro no final do relato do caso Dora quando diz:“Quem como eu , invoca os mais maléficos e maldomados demônios que habitam o peito humano, com eles travando combate, deve estar preparado para não sair ileso dessa luta” (Freud, 1905, p. 105). Sem jamais se deter diante das resistências que se levantavam contra suas descobertas e movido pelo desejo obstinado em seguir a verdade em relação a vida mental de seus paciente, Freud esbarra em outra novidade qual seja a descoberta do valor da fantasia. Foram os descaminhos, as dificuldades em concluir uma análise que o levaram completar a insuficiente teoria do trauma. No transcurso das analises quando a lembrança pertinente ao trauma não aparecia, tal fato era atribuído à repressão, porém quando aparecia a lembrança da cena de sedução a análise também não obtinha a verdadeira conclusão desejada, qual seria, a completa remoção dos sintomas e a evitação de que outros sintomas aparecessem em seu lugar. Esse foi um dos argumentos apresentados por Freud ao manifestar seu descrédito em relação a teoria das neuroses, seguido do fato de que não lhe parecia plausível que fossem todos os pais, sem excluir nem mesmo o seu próprio, capazes de atos perversos em relação a suas crianças(Freud 1987, 357-8). Dizendo não estar abandonando a teoria do trauma por não considerava superada, porém incompleta debruça-se a destrinchar o sentido da mentira histérica. Havia algo intrigante para Freud nessa coincidência da atribuição de atos perversos ao pai levando-o a suspeitar se tais situações haviam realmente ocorrido. Deste à época em que fora a Nancy,1889 e observara os experimentos de Bernheim já nutria tal suspeita de que poderia haver poderosos processos mentais que permaneciam escondidos da consciência dos homens( Freud, 1925, p. 29). Era pouco provável que a perversão dos pais em relação as suas filhas fosse algo tão corriqueiro a ponto de comparecer freqüentemente nas histórias dos pacientes. Sua incredulidade baseava-se ainda em considerações epidemiológicas, pois considerando que fosse a histeria um derivado da perversão seria necessário uma incidência infinitamente maior da perversão do que da histeria uma vez que outros fatores teriam que ser levados em conta tais como o acumulo de eventos o enfraquecimentos dos mecanismos de defesa. Apenas a conjunção desses fatores propiciavam o adoecimento (Freud, 1897, p. 358). Por outro lado se uma sedução não existira de fato, essa mentira deveria ser mais do que apenas uma injuria, porém denunciava algo até então desconhecido sobre o funcionamento mental. O que então propiciara a emergência de tais conteúdos? A experiência apontava no sentido de que a vida mental possuía atividades que não eram do domínio da consciência. Freud levou em torno de oito anos para publicar os fatos que tornaram-se, para ele, conhecidos ao final do século XIX. Não mais se tratava de buscar uma verdade última capaz de estabelecer a cura, mas de acessar a primeira mentira implicada no adoecer. Então não era de reminiscência que sofriam as histéricas, não se tratava de um acontecimento que desejaram esquecer mas de pensamento que não podem ser lembrados porque jamais foram esquecidos. Podemos pensar que a cena da sedução permitiu a Freud seguir as pegadas que o levaram de encontro a descoberta maior , qual seja a teoria do recalque, a descoberta do inconsciente dinâmico e da sexualidade infantil. Muitos anos mais tarde em um estudo autobiográfico referindo-se a descoberta do inconsciente e ao embate com os pensadores da época para os quais a vida mental era sinônimo de ‘consciente’, considera a proposta da psicanálise equivalente a ‘alguém tratar sua vida mental como sempre se tratara a vida a de outra pessoa’(Freud, 1925, p. 45). Se não era possível dada às evidências sustentar a hipótese da sedução, a cena traumática era então um produto ideacional das pacientes. Tal constatação comprovava a força da fantasia e sua significância na vida do sujeito, primeiramente a existência de atividades inconscientes e em segundo lugar a sexualidade infantil como parte integrande do funcionamento mental.Descortina-se a proximidade entre o sonho e o sintoma como produções inconscientes completamente a deriva do princípio do prazer e inteiramente alheias às indicações da realidade a ponto de impossibilitar uma distinção clara entre a verdade e a ficção que é investida de afeto .
Resumos Relacionados
- Histeria
- Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud
- Freud
- Histeria Na Contemporaneidade
- Freud - A Psicanálise
|
|