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Da ambiguidade do sagrado
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A AMBIGUIDADE DO SAGRADO
 
Não existe sistema religioso, mesmo com amplo espectro, onde os papéis do puro e do impuro não tenham fundamental importância. Em vários aspectos do cotidiano, como por exemplo, (política, ciências, arte etc.), essas palavras adquirem novos significados, mais diretos, por isso mesmo com menos profundidade.
Nos dias atuais os termos puro e impuro se distinguem pelo que se afasta cada vez mais do Imaculado Conhecimento, e aproxima-se das necessidades da civilização de maneira acentuada. São sutilmente unidos por um jogo de correspondências e metáforas, como se fossem inseparáveis e nem se imaginava separa-los. Em estética, cita-se a pureza de uma linha, em química, da pureza de corpos. Tudo que não teve sua essência alterada, seja corpo ou linha é essência do puro: homem que não se uniu a mulher, organismo vivo que não teve contato com cadáver ou sangue não se contaminou com o germe da morte e da destruição.
É importante observar que tanto puro como impuro, não detém em sua origem um antagonismo ético, e sim uma polaridade religiosa. No mundo do sagrado, o papel desempenhado por elas, é o mesmo das noções de bem e mal, na área do profano. Uma das características do mundo do sagrado, é sua oposição ao profano, são energias se sobrepondo a substâncias. 
Uma força, é boa ou má, não pela sua natureza, mas pela direção que lhe é conferida. Não se deve ter como objetivo, ver as qualidades de puro e impuro afetando de maneira única onde se reconhece a importância religiosa. Cada vez que é manifestada a força, ela tem um sentido único, ou em forma de benção, ou como maldição. “A palavra purificar, nas línguas primitivas normalmente tem ao mesmo tempo o senso de “curar” e “desenfeitiçar”.
Ao se tratar de mácula e santidade, mesmo sabendo a diferença entre elas, se faz necessária uma certa cautela, pois representam no mundo atual dois lados de um controle poderoso. É por isso, também que nas civilizações mais modernas um único termo trata delas com grande frequência. Através da expiação, o criminoso torna a levar uma vida normal, retornando seu lugar junto à vida secular, livrando-se do seu caráter sagrado. 
Segundo Ernout-Meillet, a palavra sacer significa “Aquele ou aquilo que não pode ser tocado sem ser maculado ou sem macular.” As civilizações menos desenvolvidas não fazem a separação, na linguagem, o bloqueio causado pelo respeito da santidade e a que é inspirada pelo temor da mácula. Na América do Norte, a palavra Dakota wakan é utilizada tanto para coisas maravilhosas como para as que não se podem alcançar. O termo kami, utilizado pelos japoneses, servia tanto para os deuses do céu e da terra, como para todos os “demônios”.
É na realidade essa virtude que, em repouso torna ambivalentes os sentimentos descritos. As pessoas a temem, mas gostariam de utilizar. Afasta e atrai ao mesmo tempo. Lutero, ao tratar da veneração vinculada aos lugares santos, descobre uma variada gama de receios, “E, contudo, acrescenta ele, longe de fugirmos, aproximamo-nos mais”. Frente ao divino, Santo Agostinho se vê diante do horror, e por um impulso de amor: Ele conta que o horror, vem da descoberta da consciência da distância que separa o “seu ser do ser do sagrado” e o seu ardor, em contraposição, da sua identidade profunda. O duplo aspecto da divindade, é preservado pela teologia, quando ela destaca um elemento terrível e outro cativante. 
O fascinante remete às formas majestosas do sagrado, ao êxtase, ou de forma simplificada, a bondade e o amor do Criador para com as suas criaturas. Já o tremendum representa a justiça inexorável do Deus “ciumento”, frente ao qual o pecador implora por perdão. Do outro lado, também o Demônio tem dois lados, não só exerce o papel de carrasco dos que ardem no inferno, mas usa de voz melodiosa, seduzindo o ermitão com os acepipes do deserto.  Importante salientar, que apesar dos limites extremos, o que temos é sempre um movimento duplo: a aquisição da pureza, a eliminação da mácula.
Em Levitico, vemos que ao deixar o templo, o sacerdote judeu deixa seu traje sagrado “para que a consagração não se espalhe” Esta revelação dos rituais de entrada e de saída que permitem ao homem ir de um mundo para o outro respeitando sua impermeabilidade é uma das mais ricas contribuições de Hubert e Mauss sobre o sacrifício.
 A existência profana é constituída pelo uso dos bens naturais e a participação do grupo social. O puro se afasta dela para se aproximar dos deuses, o impuro é expulso dela para não mostrar sua mácula aos que estão a sua volta. Os focos de impureza são fáceis de se reconhecer, conforme a sociedade em que estão inseridos. Podemos citar entre outros, o cadáver e, por contaminação, os parentes do morto por ocasião do luto, ou seja, durante a fase em que a mácula da morte se encontra neles em sua plenitude. Temos também a mulher, que sangra todos os meses, principalmente na sua primeira menstruação, ou quanto tem filhos, (especialmente o primeiro) até o momento purificador que acontece após cada nascimento: o sacrílego, aquele que conscientemente violou um interdito e o mais grave de todos, a regra da exogamia.



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