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A Arte da Vida
(Zygmunt Bauman)

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Em “A Arte da Vida”, publicado em 2008, Zygmunt Bauman faz uma pergunta desconcertante, “O que há de errado com a felicidade?”. Questão delicada, pois, nesta sociedade “líquido-moderna” de consumidores, a felicidade parece algo alcançável e projetada – geralmente posta ao lado da riqueza. Bauman desenvolve uma serena mas incisiva avaliação do percurso que os homens e as mulheres percorrem para dotar suas vidas dessa felicidade prometida – e que traz em seu bojo determinação e angústia. O sociólogo põe em dúvida se o crescimento econômico e a maior felicidade estão realmente vinculadas e se correspondem de fato ou são apenas demarcações em um plano político que visa um intermitente fluxo de mudanças no que concerne aos aparatos sociais e as criações artístico-culturais e o poder na esfera política.
Neste panorama o que se consolida é a incerteza. As pessoas investem suas habilidades físicas e mentais em metas de curto prazo, de vida efêmera. Bauman analisa se à procura da felicidade não é a principal razão do fracasso dessa busca pela felicidade. Ou seja, é essa procura desatada promotora de seu próprio fracasso. Ainda mais pela plausível (senão evidente) constatação que o consumo e a identidade tornaram-se marcas centrais dessa busca por uma vida feliz. O consumo no mundo 'líquido-moderno” faz com que o prazer na aquisição de uma mercadoria, afinal ser detentor de algo desejado, seja transferido para o ato da compra; e a identidade deixa de ser a soma de componentes comportamentais, morais e sentimentais, assim abandonando o “projeto para uma vida toda” e assumindo as características do passageiro, torna-se um atributo momentâneo, sendo que nem a fidelidade ou compromisso são exigências rigorosas. O indivíduo pode transitar de um grupo a outro sem se preocupar com a censura de seus membros. A participação e o desapego, apesar do paradoxo, são ferramentas necessárias para a sobrevivência nos diferentes âmbitos sociais. Neste aspecto, Bauman cita a transitoriedade como forma primaz das relações estabelecidas na atualidade.
A arte de viver descrita por Zygmunt Bauman comporta o desafio do impossível e a incerteza. Nas palavras do sociólogo, “A incerteza é o habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor da atividade humana”. Escapar dessa incerteza e fazer girar as probabilidades são fundamentais para a prática da vida. Mas na crítica, que desvela os pontos problemáticos nesta sociedade “líquido-moderna”, pode ser mencionada a artimanha de tornar a dor e a ansiedade predecessoras da felicidade. Uma felicidade que  é constantemente negociada, pois parar dará a impressão de realização. Porém na sociedade atual a interdição desse sentimento de realização surge como proposição chave para perpetuar a busca da felicidade, pois a competição, o consumo, o desconforto, a inconstância emocional são engrenagens alinhavadas com essa procura “incansável” e “usurpadora da paz de espírito” pela felicidade. O autossacrifício deixa de ter validade. Ou seja, aquilo que nos proporcionava felicidade, como a abnegação e a doação desinteressada, passam a ser empecilhos. O que conta é a prática da “autodefinção” e da “auto-afirmação” que acabam consagrando a recorrente destruição criativa.
Bauman discute ainda o amor, a sorte e o destino nesse trajeto de uma vida voltada para a felicidade (a sua busca mais do que sua efetivação); o equilíbrio psicológico é algo persistentemente ameaçado porque dá a dimensão dos abusos da exigência pelo reconhecimento e da asseguração em algum grupo social ou todos– ser “um de nós”, o não excluído. Este tráfego complexo de ajuste e desajuste social é o que Bauman evidencia (citando Christopher Lasch de “Culture of Narcissism” como o primeiro a observar e articular) como o resultado de transformar “queixas coletivas em problemas pessoais suscetíveis à intervenção terapêutica”. Bauman chama a atenção para o fato de que os homens e as mulheres parecem ser coagidos a tornarem-se felizes. A perpétua tensão entre segurança e liberdade, valores que parecem irreconciliáveis, mas que são necessários para uma vida feliz, é examinada para averiguar sua consequência na arte de viver. Vida, que é obra-de-arte, confeccionada diariamente por nossa vontade e liberdade de escolha. A asseveração que nossas escolhas são produtos da influência de forças externas, é para Bauman formas de reduzir os nossos tentos factíveis. Porém  deve-se estar atento ao discurso padrão-hegemônico que responsabiliza o indivíduo como exclusivo agente tanto do infortúnio quanto do sucesso de seus empreendimentos. Reflexo da ideologia da privatização numa sociedade individualizada.
Nos trechos mais instigantes, Bauman dialoga com dois filósofos antagônicos: Nietzsche e E. Lévinas. De Nietzsche, ele extraí a crítica à moral dos fracos, a discussão acerca do ressentimento como propulsor das forças reativas e o projeto do Super-homem. De Lévinas, Bauman evoca a ideia do reconhecimento de si mesmo possível na busca pelo bem do Outro, na consciência necessária de perceber o Outro como razão de meus atos (devo priorizar ações benevolentes).
A arte de viver demanda escolhas, nem sempre acertadas. Numa sucessão de acontecimentos, nas tentativas corriqueiras ou nas previsões banais, Bauman aponta o caráter como princípio essencial na compreensão da vida que se constrói ou se afirma. A arte de viver se constitui nas maneiras adotadas para perceber o que torna a vida feliz.
Zygmunt Bauman ao perguntar “O que há de errado com a felicidade?” propicia uma reflexão indispensável sobre nossas ambições diárias e coloca na berlinda o já questionável desejo de sucesso a qualquer preço.



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