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Si può fare - É possível fazer (parte 1)
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“Si può fare” nos introduz em um mundo psicótico que mostra durante 110 minutos o que “É possível fazer”. O quê? Cooperativas de trabalho que levam em conta a capacidade dos não-neuróticos nem perversos nem loucos.   A laborterapia aplicada ao mercado é o meio de inclusão dos psicóticos na sociedade, uma vertente do que propôs o médico psiquiatra italiano Franco Basaglia (1924-1980), pela reforma antimanicomial, a Psiquiatria Democrática.

Esqueçam termos como loucos, dementes e doentes mentais. O que enlouquece, porque aliena para além das paredes de concreto da prisão manicomial, são as altas doses de medicamentos a que são sujeitados os pacientes, o descaso, a falta de escuta dessa gente, a despersonalização e outras barbaridades cometidas contra a diversidade do humano, evidencia a história baseada em muitos fatos da realidade.

Verdadeiras camisas de força anestésicas, as pequenas drágeas para tudo o que é diagnóstico (parece que é só pra isso que eles servem de fato - os diagnósticos) encarceram o que há de singular em cada um. Os psicóticos são extremamente sensíveis, não educam nem enjaulam suas emoções, daí a intensidade das paixões que podem levar ao suicídio, como num episódio deste roteiro.    

Assim a ala de autistas a que se refere o enredo torna-se de fato uma seção de autômatos, robôs que apenas respondem à demanda de “normalidade” neurótica. Na tal ala, aliás, há um autista, um esquizofrênico, uma histérica e um paranóico, todos graves. Os demais não expõem muito bem seus transtornos, mais parecendo uma mistura de, digamos... diagnósticos. Então, como medicar com tanta certeza? Simples, coloque-os para dormir, torne-os catatônicos. Enquanto sabe-se, mas ignora-se solenemente, que eles possuem organização de pensamento própria, e que quando em crise, sob pressão de fatores externos, pode emergir sob a forma de delírio.      

Isso me faz lembrar um fragmento de poema de Caetano Veloso: “Narciso acha feio o que não é espelho”. Poder-se-ia dizer que os “normais” são assim: o que está para além do entendimento, da moldura do frágil espelho que sustenta um sistema estressante e por isso mesmo necessitado de sentido e simbolização a todo o instante, é louco. Será? E o mundo do prêt-à-porter literalmente “pronto para levar”, leva quem ao quê? Talvez a uma tentativa de simbolização do consumo sem sentido, ditado e alienante a cada estação.

Pois, eis que um executivo da moda, farto das jogadas capitalistas e já sem sentido para si mesmo, tenta uma vaga como diretor do hospício. Mas, sem qualquer experiência médica, muito menos na área psiquiátrica, não passa da primeira entrevista com os enlouquecidos hóspedes. Hipoteticamente, não dá para o ramo. Na prática, insiste. Passa a usar a sensibilidade de homem de negócios, fomentando na cabeça de seus clientes estratégias de mercado, pela via do cooperativismo.     

Após uma breve reunião, chegam a um acordo conjunto sobre o que farão para ganhar mercado. Trabalharão com parquet, aqueles tacos de madeira que revestem o chão de espaços fechados. Sob o olhar descrente do diretor do hospício, que afinal não pode se aposentar por falta de substituto que atendam a seus parâmetros clínicos, um experiente profissional da área é convocado pelo executivo para treinar os sócios da cooperativa.

Após muito retrabalho e experimentos na casa do próprio executivo que tem até as paredes do banheiro recobertas por parquet, a equipe enfim está pronta para encarar o mercado. Mas, ganha visibilidade e notoriedade a partir da criatividade de dois sócios, que na falta de tacos perfeitos usam retalhos e fazem mosaicos para recobrir partes do chão ainda nu. O executivo, de estrutura psíquica neurótica, observa que a tal estrela é um símbolo de forte repúdio na Itália e teme pela reação do cliente. Para os cooperados, o desenho no chão é apenas uma estrela de cinco pontas, sem o alcance simbólico que tem para o executivo.

Talvez os psicóticos sejam muito bons na organização e junção dos pedaços concretos, como num mosaico, tamanho o despedaçamento e desorganização internos. Mas, desorganização do ponto de vista de quem? É o que basta. O cliente é quem manda e gostou tanto da tal estrela de fragmentos que pediu a reorientação de todo assoalho já pronto, como se quisesse transformar aquele chão certinho, previsível e infernal, num pedaço de céu   - incéurto e cheio de possibilidades.



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