Durval discos
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Nesta resenha, pretendo compartilhar com os leitores as considerações
que fui tecendo enquanto assistia ao filme Durval discos, exibido
recentemente, por ocasião do aniversário da cidade de São Paulo. Aqui,
procurarei destacar algumas semelhanças entre os protagonistas do filme – Durval e sua mãe – e a cidade em que a história é ambientada.
Logo de início, vemos um rapaz apaixonado por vinis. Ele tem uma loja
abarrotada deles, e não consegue vender, já que os poucos que entram na loja procuram por CDs.
Durval parece não ter amigos. A única a visitá-lo é uma moça que
trabalha no comércio ao lado. Suas idas à loja de discos assemelham-se a escapadas, que ela faz para fumar. Nesses momentos, falam de assuntos banais, ela reclama da patroa, pergunta das vendas e a resposta é sempre a mesma: nada. Então, ela começa a discorrer sobre o aumento das vendas de sorvete, principalmente do novo sabor inventado pela fornecedora, além das coxinhas de frango que são a especialidade da casa.
Aqui há um claro contraste entre o que move a cidade, no que tange à
economia: alimentos, telefonia, vestuário. Há produtos e serviços que têm um espaço e um lucro quase que certos, enquanto outros...
Acompanhar os avanços tecnológicos é fundamental. Mas o corpo não é só carne. E a alma que o habita, o que o alimenta? E se alimentado o corpo e não a alma, quais as conseqüências para o espírito? A busca por CDs dos que entram na loja indica que a cidade tem buscado saciar sua fome de poesia, de estética, de instantes de êxtase e de fruição. Mas Durval não aceita as mudanças, insiste na velha roupagem.
O longa avança e descobrimos que mãe e filho moram nos fundos da loja,
num sobrado velho e decadente. Vê-se as marcas do tempo nas paredes manchadas, na mobília da casa, no jeito como a senhora cobre a cama. É ela que cuida da casa, uma senhora idosa, elétrica e falante. Durval não é gentil, o seu tom de voz é sempre áspero, impaciente. Sempre atenta, para cada um que sai da loja ela pergunta: “Comprou?”
A ausência de movimento na loja é uma extensão da falta de movimento
da vida dos dois. Mas se Durval tem para cada momento externo e interno um vinil, que pega delicadamente e põe para tocar, a mulher, o que tem? Os dois são símbolos das forças que ainda permeiam a cidade: a dos adeptos ao progresso gradual, que leve em conta a tradição.
No entanto, o amor excessivo pelo velho é perigoso: faz parar no tempo o que foi feito para o movimento. A mãe tem vigor, tem pressa, não quer esperar, tem ânsia de algo. Não faz mais feijão, não faz mais o seu famoso doce de ovo queimado, diz ter perdido a receita. O filho, julgando ser o cansaço a causa, convence-a a contratar uma empregada. Não desconfiam da beleza, da jovialidade da moça, do baixo salário que ela aceita.
Quando a recém-contratada deixa uma menina na casas dos dois, a
senhora rejuvenesce. Brinca com a menina, prepara-lhe feijão, faz-lhe todos os gostos. Durval resiste por uns tempos, mas se rende. Cogitam ficar com ela. Logo depois, descobrem que a menina havia sido seqüestrada. E instaura-se o dilema: entregá-la às autoridades implicaria no retorno ao cotidiano. Mantê-la seria crime.
É de Tcheckov a frase:
“O desejo de servir ao bem comum deve ser, de modo incoercível, uma
necessidade da alma, a condição para a felicidade pessoal, mas se não é disso que ela decorre, e sim, de considerações teóricas e outras que tais, esse desejo é então outra coisa.”
Para mãe e filho o bem comum resultaria da entrega da criança à
família, mas contrariamente ao contista russo, para os dois tal ação não implicaria na felicidade de ambos. E porque a menina trouxe vida à existência deles, vão adiando o que sabem ser seu dever. Mas o bem que a presença da criança lhes proporciona não é duradouro, nem resiste aos obstáculos que vão surgindo, trancam a casa, mentem sobre a origem da criança, vivem numa tensão dupla: a divergência entre filho e mãe
quanto ao momento de entregar a menina e o medo não só de serem descobertos mas também de serem associados à quadrilha que a havia sequestrado.
Esse conflito e a tensão dele resultante (embora vivenciados por dois
personagens, mas que bem representam a comunidade paulistana) representam o adiamento da decisão por princípios éticos capazes de bem ordenar o convívio social e por extensão ‘a saúde da polis’: sabe-se o valor do trabalho como experiência de realização humana, mas limita-se a vê-lo como mal necessário, a bem do sustento. Isso quando não se opta por meios escusos de obtê-lo. Sabe-se do valor da palavra e da honestidade como verdadeiros agregadores de valor ao homem. Mas tenta-se obtê-lo por meio da beleza, do status e do acúmulo de bens. E a felicidade vai sendo posta de lado, embora todos a busquem, talvez porque estejamos isolados cada um em nosso mundo e nos esqueçamos que estamos profundamente ligados ao meio e aos que nos rodeiam, contribuindo beneficamente ou não para o todo. Talvez porque não saibamos o que é o Bem Comum.
Chega um momento e que tudo ruiu. A polícia à porta. Durval finalmente assume as rédeas da situação. Move-se. Mas é tarde demais. Sua mãe sucumbe.
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