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Do diário de Sílvia
(Érico Veríssimo)

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A leitura de diários tornou-se uma febre entre os jovens leitores,
meninos e meninas. Basta ver o aumento de títulos que vêm sendo comercializados
pelas livrarias. Em sua maioria relatam estórias de garotos e garotas às voltas
com os dramas da idade. Os problemas de relacionamento, os primeiros amores, as
questões escolares, a descoberta da sexualidade. Alguns desses textos têm o
propósito explícito de divertir, outros procuram auxiliar os leitores mirins no
enfrentamento da nova fase, a adolescência. Cheia de conflitos, seja com o
próprio corpo e suas mudanças, seja com os sentimentos e a necessidade de se
optar por ocupar um lugar no mundo, sem nem ter tido tempo de se saber quem se
é porque ainda em
construção. Não é nada fácil crescer. Abrir mão de coisas em
prol de outras sem ter certeza de que se fez a melhor escolha. Ter de decidir,
ter de opinar, de escolher uma profissão ter de conviver com as consequências.



Todo educador perspicaz, seja ele pai ou professor, sabe que nem todas as
conversas do mundo darão conta de preparar os jovens para os desafios que a
vida lhes reservam. Por isso, presenteá-los com diários, não apenas os de apelo
comercial ou com o único propósito de entreter, mas também os que os auxiliem a
se conhecer para melhor interagir com o mundo em que vivem pode ser uma
excelente estratégia. Há deles que são bem sérios, como o de Anne Frank. E há
este que tem sido uma surpresa para os que o encontram nas estantes da
livrarias. Chama-se O diário de Sílvia e foi escrito por Érico Veríssimo. Não
foi concebido como um livro avulso pelo autor, faz parte da trilogia O tempo e
o vento (O continente, O retrato e O arquipélago). Essa saga é histórica,
relata a trajetória do Rio Grande do Sul: desde colonização até a era Vargas. Ao
ler a obra, o leitor vai conhecendo as histórias de Ana Terra, do capitão
Rodrigo, de Bibiana e outros personagens, inclusive a do Brasil. Do diário de
Sílvia faz parte dos últimos capítulos do terceiro volume da trilogia.

Ao publicar em livros separados as histórias de Ana, Capitão Rodrigo e
Sílvia, a Companhia das Letras acabou por evidenciar a grandeza desses
personagens, esquecidos pelo passar do tempo, empoeirando em grossos volumes
nas estantes das bibliotecas.

Há em Sílvia muito com que os jovens de hoje possam se identificar. Ela é
moça nova, cheia de sonhos, de expectativas não realizadas, que só não
enlouquece por três razões. Primeiro, assume uma posição de observadora de suas
próprias dores e também as de outros. Em segundo, decide manter um diário para
ir esvaziando o que poderia sufocá-la ou o que não tem para quem confessar (ou
porque não tem coragem de confessar, já que tem no padre da paróquia próxima um
amigo). Em terceiro lugar, procura em Deus ou no sentimento religioso,
companhia, amparo e refúgio frente à perspectiva de vida que se lhe apresenta:
casada com que não ama, impossibilitada de ter filhos, assistindo à decadência
da família em que tanto quisera entrar.

Ela fez o que pôde para chamar a atenção do irmão que amava. E quantas
meninas não agem assim? Mas ele não percebeu ou não se decidiu (talvez porque
soubesse do interesse de seu irmão pela moça) E ela, órfã de pai, filha de
costureira amargurada, herdeira dos vestidos velhos da filha da casa, uma
agregada, acabou por ouvir os conselhos da mãe. “Casa, outro que te ame assim
não acha.”

Ela casou, acreditando que aprenderia a amá-lo. E vieram as questões do
sexo: um quase prazer que não se consuma porque o marido, homem rude do campo,
não lhe compreende o corpo. As tentativas de solução do problema por parte dela
não despertam a sensibilidade dele e ela acaba por desistir de sentir prazer.
Qual os impactos dessa situação na psiquê de uma jovem? Todo o potencial
afetivo que carrega ela decide dedicar ao filho ansiado, mas que não vem. Como
se não bastasse, o dono do seu coração volta da Europa, inteligente, vivido e
proibido para ela. Jamais conversam sobre os sentimentos. Só dela?

A ebulição com que Sílvia tem de lidar não é só interna, a 2ª Guerra Mundial
está em franca expansão na Europa e o Sul, colonizada por europeus, dentre eles
os alemães sente os seus efeitos. Lojas saqueadas, insultos, ouvidos atentos a
cada noticiário do rádio num tempo em que não existia televisão.

Essa fuga quase mística de Sílvia, para dentro de si mesma e para a
contemplação dos campos, para a alfabetização dos filhos dos colonos, é real ou
o que se permitiu escrever Érico Veríssimo? Uma leitura mais atenta do livro,
com especial atenção às lacunas, ao não dito ou dito nas entrelinhas, o que
revelará de um tempo, o que revelará das mulheres desse tempo? O que revelará
nos jovens que o lêem? Fica o convite.



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