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Eu SOU O NÃO-VOCÊ
(nelson pascarelli filho)

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EU SOU O NÃO-VOCÊ (Para Beatriz Kiapine)







“Uma das
poucas alegrias da vida numa época de ansiedade é o fato de sermos forçados a
tomar consciência de nós mesmos. Quando a sociedade contemporânea, nesta fase
de reversão de padrões e valores, não consegue dar-nos uma nítida visão do que
somos e do que devemos ser, nas palavras de Matthew Arnold, vemo-nos lançados a
busca de nós mesmos”. (Rollo May)



I

A
existência humana tem nascimentos e falecimentos.

Nascemos para nós mesmos quando aprendemos a
dizer não, não por birra, mas porque nasceu o Eu que afirma: Eu sou o Não-Você.

II

Como você decide? O que norteia suas decisões? Decidir
a partir de referenciais culturais familiares, valores morais e religiosos,
políticos está enraizado tanto aos nascimentos quanto aos falecimentos que
surgirão ao longo da existência.

Você caminha pelas próprias pernas ou é “marionete-do-desejo-do-outro”?
Reedita velhas e doloridas lições moldadas pelo inconsciente familiar ou
escreve sua própria biografia?




Desilusões permitem avançar com segurança e
oposição a essa repetição embolorada e secular que mais engessa do que elabora,
e é avançando para nascimentos sociais e afetivos que se atinge o prazer de
viver e é assim que se triunfa o “Ex-isto”.

Lembrando que “isto” se usa para objetos que
nada desejam, apenas consagram o uso e a forma, e deles não ultrapassam.

Alguém já te tratou como isto?

III

Tradições são importantes, algumas delas dão
sentido à vida e outras confinam e sufocam.

Desilusões são falecimentos que sinalizam
quando um ciclo imperativamente deve terminar para que outro nascimento ocorra.


Não se pode ser criança a vida inteira e tomar
decisões infantis movidas por impulsos primitivos.

É um atentado ao desenvolvimento psíquico ter
medo de sair da casa dos pais para prolongar conveniente adolescência insana,
quem assim age, abraça o ridículo.

Assumir construções afetivas, torná-las consistentes e fortalecê-las, é
nascer para o outro, é dar de si não somente o possível, mas o melhor, e, assim,
nascer no sentido oposto do
egoísmo, envolvendo plenamente a
alteridade – ver e sentir o outro enquanto outro – sem anular-se, mas ampliando
horizontes culturais e humanizando-se.

Eu acredito que se humanizar tem este percurso:
Dar de si sem nada exigir e sentir o outro enquanto outro, tirando velhos
óculos com lentes sujas e embaçadas por tradições estúpidas.

IV

Seguidos nãos e desilusões causam falecimentos,
e muitas pessoas se recusam a vivenciar o novo porque ficam presas em doloridas
perdas que as aprisionam no passado, passado tem que passar, isto parece muito
simples, mas não é.

Depressão, pessimismo e caminhar, caminhar e
não chegar a lugar algum, são as consequências desse incômodo passado que não
passa, do novo capítulo que não sai do rascunho e, tristemente, sabemos que não
temos todo tempo do mundo! O rascunho
pode ficar tão imenso que não sobrará vida para passá-lo a limpo.

Muitos sofredores que procuram entendimento
buscando psicanalistas, psicólogos e psiquiatras, carregam em suas costas
imensos e encardidos rascunhos escritos em folhas amareladas, emboloradas, sem
ordem alguma, amarradas pelas amarras da repetição: Nenhum nascimento, pleno
engessamento!

Enquanto se gasta muita e preciosa vida
buscando entendimento solitariamente, ensimesmando-se a cada dia ensolarado, os que te amam sofrem,
mas tenha certeza que eles seguirão em frente porque quem tem saúde mental e
ama sabe quando é tempo de desistir...

V

Desistir, desfazer, doar e esquecer, é dar
oportunidade para que o novo se instale em sua vida, é caminhar em direção à
saúde mental e favorecer eficaz nascimento, afastando-se do velho, conhecido e
previsível inferno regido pela dor que amputa os tentáculos do desejo: Quem não
deseja, está morto em vida.

VI

Escolher uma profissão que dê sentido para sua
vida; permitir ser amado um pouco do jeito do outro e perguntar-se - em quê a
Humanidade está melhor por causa da minha existência - é preencher com siso esse “nada-nada” tão
alienante que flerta com o suicídio: O vazio é assustador, pensar no não-ser,
no que não tem nome e nunca terá, é padecer entre angustiantes paradoxos,
porque gastar vida com eles?

Ser fútil, cotidiano, previsível o tempo todo,
e fazer mais do mesmo é ofender o triunfo da evolução que tornou nosso cérebro
capaz de criar Ciência, Tecnologia e Arte e admirar e se emocionar com o belo!

Acredito que a humanização surgiu com o desejo
de amenizar a dor do outro e sinto-me ofendido quando ouço a frase: Cada um com
seus problemas! Agir assim é falir e desumanizar-se.

VII

Nascemos
biologicamente e nossas células estão paradoxalmente condenadas a morrer
gradativamente a cada instante seguinte e, aquelas que se recusam a morrer,
tornam-se células cancerígenas; nascemos para nós mesmos o tempo todo se identificando
continuamente com referenciais culturais ou afastando-se deles; nascemos socialmente – nobre e excelso nascimento social - quando
aceitamos o outro enquanto outro, mas são os falecimentos estratégicos em vida que
consagram a arte de viver bem para não morrer duas vezes: Uma em plena
existência e outra ao final da velhice.

Para falecer estrategicamente é preciso saber
fechar portas e dizer não para quem te
condena à infernal repetição.






Para Saber
Mais



Filme

Morangos Silvestres. Bergman. Suécia. 1957.

Livro

O Homem a Procura de Si Mesmo - Rollo
May.



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