Eu E Ela
(magma)
Manuel Joaquim Guedes Martins. Eu. Operário de folguedos e maroteiras, dono de fisga e de pião, menino da bola no desaparecido Andrade, construtor de sonhos e arquitecto de esperanças no C.I.C. - Colégio Internato dos Carvalhos, a rir e a cantar o Lá Vamos? Fabricante de lágrimas, também. Eu?pedaço do mito da malta dos Carvalhos, nos idos de 60 e tal... Que me passei há dezassete anos. Aos 25 de Agosto. De 1988. O ano e o dia do incêndio no Chiado. Quase a fazer 18 anos. A maioridade a um ano de vista. A maioridade da morte sobre a vida. A vida que me morreu . Daquela maneira. Lúcida, lenta, inexorável. Ah?mas eu morri por E.L.A. ( esclerose lateral amiotrófica) . Só que E.L.A, ela, não conhecia. Nunca lhe tinha sido apresentada semelhante criatura. Num primeiro momento a incredulidade tomou forma mas, rapidamente, deu lugar à crença, à esperança, à fé que move montanhas. Prostrava-se, então, no escuro do quarto aos pés do Divino e chorava. Chorava lágrimas grossas que escorriam por fundos sulcos cavados por anos a fio naquele rosto, testemunha de uma vida e tanto. Aquele rosto. O rosto da minha mãe. E rezava. A minha mãe rezava? Respirei mais três anos e pico. Uma respiração mais e mais presa d?E.L,A. Que era exigentíssima. Obsessivamente possessiva e doentiamente gulosa de mim. Uma vez dona, não mais me largou. Poderosa. Não mais desgrudou. Seus tentáculos, envolviam-me num tal amplexo que a própria respiração, já ofegante, ameaçava desistir. Mas E.L.A. não afrouxava. Tal o modo como se assenhoreou de mim. Já não sabia quem era. Sei que havia uma ?coisa? a quem, E.L.A. possidónia, primeiro levou o braço, depois a perna, as mãos, o outro braço, a outra perna?.! E.L.A. Omnipresente. Eu já não era eu. Era d?E.L.A. Apanhando-a distraída, de vez em quando, deixava cair a cabeça e atirava os olhos para baixo, e então, via. Via-me numa cadeira de rodas. As pernas rígidas, para ali postas. Desamparadas. Umas mãos em forma de garra, que não conseguia mover. Uns dedos sem força, sem comando nem direcção. Os músculos voluntários até então leais e senhores de força viril e honesta, perdidamente apaixonados por E.L.A, com E.L.A se foram naquele abraço. Ingratos! Solícita, a lucidez mostrava-me o corpo que ao tacto era viscoso. Um visco que escorria e se entranhava nas mãos de quem me tocava. Repelente. Sim, sim, é essa a palavra. Mesmo?! Indutor de olhares entre a piedade e a repulsa o corpo desfigurava-se Era já uma pústula! Já não conseguia comer. As minhas mãos, já não o eram! Debruçava-me então sobre o prato. A boca aberta, sôfrega, procurava pedaços de comida, que agarrava e em esforço engolia ao ritmo de uma respiração descompassada. Sentia que eles me sentiam. Por isso se afastavam. A hora de almoço, ensejo para um convívio gratificante entre profissionais, transformou-se em tempo pesadamente deprimente. Não lhes dava oportunidade de descomprimir. Eu era um espectáculo mórbido de que fugiam. Sem vontade de comer. Deixavam-me só. Mesmo os mais íntimos a adejar à nossa volta, a sofrerem o nosso sofrimento, não impedirão nunca aquela sensação de partilha impossível da doença, da dor, da desgraça, que é só nossa. Singularmente nossa. Uma solidão sem medida, como esta que me deixou, simplesmente, só. Só para E.L.A. Na minha cabeça ainda a revolta! Revolta contra quê? Os dados estavam lançados. Compreendi. Tinha mais era que aceitar! Não havia retorno! E uma noite?há dezassete anos.. o amor d? E.L.A por mim era tanto e tão grande que os músculos deordem involuntária, enfeitiçados agora, também se foram, roubando-me, para a E.L.A oferecer, o sopro da vida. Da minha vida. E, uma noite, vitoriosa, serena, com um derradeiro abraço E.L.A pegou-me ao colo e foi-se?! Foi-se aquela senhora que ninguém conhecia. Nem mesmo Charcot no século XIX, que a perseguiu. Em vão. E.L.A continua a apaixonar-se intensa, desmedidamente pelas pessoas. Por quem? E.L.A. não disse, nem deixou escrito. Sabem ! É que com E.L.A. tem sido sempre assim. Como os amores absolutos. Absorventes. Totais. Tudo por tudo. Em vão clamaram os meus?.Não olhei para trás. Também não valia a pena. Os sentidos, sem sentido, já não sentiam. Estava ? no ir ?. Daí! De onde, por ora, vocês estão. Para aqui, de onde a todos vos topo. Com muita, mas mesmo muita simpatia. Simpatia que é o que mais se vende por cá. Barata. Muito barata mesmo a simpatia. Tão barata aqui, como extremamente cara aí, onde vocês estão. E no vosso linguajar morri. Mas morri em cima de outra vida que, assim, mais cresceu. E em cima de mais outra que, também assim, mais depressa se teceu. Sem mim, dolorosamente sem mim. Mas estão bem, os meus filhos. Eu sei. Fiam bem o fio da vida! É que, tenho a certeza. Os meus filhos são bons tecelões. Os genes dos pais estão lá. Embora já passado, a vida sorri para mim? e Mãe, cúmplice, como só as mães sabem ser, olha para eles! Para vós também! Eu sei! Sou o Martins. O Manuel Joaquim! Só vim dizer-vos Olá! 15AGO2005
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