Dom Tanas De Barbatanas
(Tomaz de Figueredo)
Li Tomaz de Figueiredo em 1962, ano da publicação do primeiro volume da saga Dom Tanas de Barbatanas (...). Lembro, ao tempo da sua leitura, a sensação de transpor um univervso de prosa quase barroca - se deste estilo retirarmos a parte negativa do medievalismo serôdio -, considerando apenas a profusão de vocábulos numa leitura de sistemas linguísticos diferentes, que interligam muito em especial a sua literatura e a imagem, a fotografia de que o Tomaz foi hábil amador, nos temas e enquadramentos.(1) Talvez por isso a sua narrativa tenha, no meu conceito cinemático, uma subtil correspondência metafórica com o drama fílmico, numa técnica narrativa que poderá confundr-se com a visão fantástica dos sete volumes proustianos, Em Busca do Tempo Perdido. Sei que Tomaz, em matéria de tempo, recusou liminarmente a reconstituição "proustiana" do passado na sua obra; mas, pela razão que o ligava ao cinema (Bergman de quem ele muito falava), sou levado a admitir que a "influência" de Marcel Proust(2) será ocasional e não intelectual. Para mim o Tomaz foi sempre o Tomaz, envolvido na memória do passado, na poesia da imagem da ruína, da solidão e da morte, numa linha prosaísta semelhante a Vieira e Camilo, como é considerado pelos estudiosos, designadamente por João Bigotte Chorão. Ainda memoriando o meu conhecimento do escritor e do amigo, através das vivências em comum, até à sua morte, posso adiantar que este gosto singular do autor da Toca do Lobo pela fotografia material e também psicológica, vai recriar o lado social das suas personagens, fluídas nas imagens dos seres em movimento, ocultas algumas pelo esquecimento, pelas lembranças, ou pela memória alheia ligada ao escritos. Dir-se-ia que estes elementos serviam de referência ao "guião" de narrativas, em forma de prosa metafórica, em cenários naturais de genuína harmonia cinematográfica. De tudo isto falámos, em tempos de convívio, numa cumplicidade espontânea, no Gambrinus, no Café Aviz, ou em qualquer local de passeio, noite adentro com amigos certos, pela Avenida da Liberdade até à Elias Garcia, onde morava. Neste percurso, uma vez aconteceu ficar angustiado quando me falava da Torre de Madorna, da família, dos filhos, até suster a tristeza do olhar... e, por momentos, como num flash-back de um filme "intitulado A Má Estrela" , imaginei a voz off do escritor no monólogo, de pai para filho: Quantas vidas que são precisas para falar de uma vida! Mas tu ir-me-ás ouvindo Luís. Até ao frio, não me calo: até ao frio continua o meu silêncio a falar contigo, e tu a entendê-lo, e, em chegando o frio, então hás-de beijar-me... (3) ... Depois de um breve silêncio o prosador poeta convida-me a cear. Fomos e ceámos. Mais tarde acompanhei-o até à porta de casa; despediu-se, -"adeus rapaz Varela, até amanhã, obrigado pela companhia. O menino aparece amanhã? então bons sonhos..., e já agora merda-seca para o Tocha!. (4) Manuel Varella _________ (1) [...] foi no povo anónimo e boçal, analfabeto mas culto, que [Tomaz de Feiredo] encontrou as melhores pérolas, as expressões mais vivas e falantes, apesar de, na sua maior parte, serem desconhecidas dos lexicógrafos oudesvirtuadas de sentidoigu, Artur Anselmo, Colóquio/Letras, nºs 159/160, Junho de 2002, Fundação Calouste Gulbenkian.(2) Marcel Proust [1871-1922] autor da obra, Em Busca do Tempo Perdido foi, também, um mestre de expressão conjuntiva do texto/fotografia; ele próprio foi um entusiasta pela fotografia.(3) in A Má Estrela, Tomaz de Figueiredo, Editorial Verbo, 1969.(4) Epíteto que o escritor achou melhor para referir a personalidade politica de um Presidente do Conselho da época.
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