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Dom Casmurro - 5 Prt
(anabordin)

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infância. Como ele dizem Memórias Póstumas, ?o menino é pai do
homem?. É o que se vê em
Dom Casmurro. O autor dedica praticamente meio romance à
infância, Com o fim de mostrar ?ab ovo? o embrião do caráter das personagens
principais e concluir que a Capita menina estava dentro da adulta, ?como a
fruta dentro da casca?.

3) Ao apresentar o perfil de
Capitu, Machado de Assis revela traços da psicologia feminina: a arte de
dissimular e a capacidade que tem a mulher para sair-se bem de situações
embaraçosas, como, aliás, se pode ver também em Quincas Borba com
Sofia. e outras obras machadianas. Essa capacidade de dissimulação de Capitu,
sem dúvida, contribui enormemente para deixar no leitor de Dom Casmurro a
dúvida que paira no final do romance: houve ou não houve adultério?

4) Apesar do ?duo
terníssimo? de Bentinho e Capitu, Dom Casmurro é um romance de velhos e
solitários (D. Glória, Tio Cosme, Pe. Cabral, José Dias, Prima Justina, além do
nosso casmurro narrador). Como é próprio de Machado de Assis a velhice no livro
é perpassada de uma visão amarga e melancólica, dominada por magoas e
ressentimentos. Sem dúvida, é licito afirmar que, filtrada pela ótica do
narrador, Machado de Assis insinua que a existência humana sempre desemboca na
casmurrice e na solidão.

5) Tudo vai-se
desfazendo com o crepúsculo da existência humana: a graça, a beleza, as flores
de antanho; pela vida vazia, vão ficando as lágrimas, a cinza, o nada. Vista de
uma perspectiva pessimista (como é  freqüente em Machado de Assis), a
velhice é perpassada de amargura. solidão e sensação de vazio e perda qual se
acentua e dói ainda mais com a consciência da irreversibilidade do tempo.

6) E impressionante em Dom Casmurro a ação
devastadora do tempo sobre coisas e pessoas. Poucos ficam, corno o desencantado
Dom Casmurro, para contar a história: todos são devorados pela ação voraz e
demolidora do tempo - todos morrem. E quem fica vivo, como Dom Casmurro, é
atormentado pela mágoa pelos ressentimentos e sobretudo pela solidão catacumbal
da casmurrice e do desencanto.

7) Como é próprio da literatura
realista (e sobretudo de Machado de Assis) um dos propósitos do livro é
desmascarar o ser humano, revelando a precariedade e a hipocrisia das relações
sociais. Em entrevista à Folha de São Paulo (3/8/91) com o ensaista inglês John
Gledson, o Prof. Luiz Roncari (autor de Assim não brinco mais) observa e
pergunta: ?A questão do adultério, traição ou não, só ganha importância mesmo
no último terço do livro, na parte efetiva da intriga, mas a mentira está muito
presente em todo o livro. A verdadeira questão não seria: como a mentira é
fundamental para a manutenção das relações sociais, das relações humanas??

8) Em suma, em Dom Casmurro pode-se
ver um perfil da sociedade da época (e certamente de hoje), corno afirma o
ensaísta John Gledson no prefácio de seu livro Machado de Assis: impostura e
realismo: ?Este livro procura descobrir as intenções de Machado em Dom Casmurro. Seu
engenho e inteligência superiores mio são postos em dúvida; mas espero mostrar
que o que lhes confere a agudeza, a lâmina pontiaguda, é a sua visão da
sociedade na qual se criou, na qual teve muito sucesso profissional, mas que -
em um nível que só encontra expressão em suas maiores obras - talvez
detestasse?.

9) Outro ponto que se
destaca em Dom Casmurro
é a religião, a começar pelo próprio nome do narrador (Bento, Bentinho) e
Capitu, que ?está bem próximo de capeta?, conforme observa o Prof. Antônio
Dimas, da USP. Sem perfilar unia linha anticlericalista (tão em voga na época),
?a gente não pode deixar de levar em conta a religião no livro?, diz o Prof.
John Gledson. ?E o único romance de Machado onde a religião católica aparece
com tanta importância. Em Helena, a religião é um pouco abstrata Mas aqui é o
catolicismo, com suas Aves-Marias, seus Padres-Nossos, com seus santos,
seminários etc. Ele cita a Bíblia deum jeito terrível As vezes cita São Pedro
(sic) no seu momento mais anti-feminista - em que as mulheres devem estar
sujeitas a seus maridos -, para reforçar o seu ponto de vista. Ou seja, é um
livro que retrata o catolicismo e retrata mal, evidentemente. Isso está na
linha de Eça de Queirós só que mostra como a religião funciona na vida Intima
das pessoas?.

10) Confrontando com os
romances românticos, que nos passam uma visão idealizada do amor e do casamento
(como é próprio do Romantismo), Dom Casmurro mostra o lado terrível,
contundente, patético (e real?) do casamento, do amor e da vida. Embora a vida
humana possa ter os seus encantos (é perfeitamente possível o ?duo terníssimo?
do casamento, da amizade - das relações sociais), a visão apresentada por
Machado de Assis acerca da vida (especialmente do casamento, do amor e da
amizade) é amarga e niilista, filtrada pela ótica de uni narrador casmurro,
ressentido e magoado pelas trapaças da sorte. Distante do ?happy end? dos
romances românticos, cm que o casamento é uma verdadeira comunhão de amor, em Dom Casmurro o
casamento é simplesmente uma comunhão de bens, que ?dura quinze meses e onze
contos de réis?, como disse o cético Brás Cubas.

 



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