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Dom Casmurro - 4prt
(anabordin)

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3) Outro aspecto
interessante é o uso freqüente de alusõees, referências e citações que vão como
que confirmando as suas idéias e pensamentos, o que, por outro lado, revela bem
a espantosa cultura e erudição de Machado de Assis, adquiridas de forma
autodidata como vimos.

4) Ao longo das suas narrativas,
Machado de Assis (ou o narrador que conduz a estória), sempre gostou de
estabelecer uni diálogo com o(a) leitor(a): conversa com ele(a), dá-lhe
conselhos, pondera e explica: ?Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo;
se te lembras bem da Capitu menina...? (Cap. CXLVIII).

5) Outra coisa que chama e
atenção são as suas personagens, quase sempre bem situadas na vida, sem
necessidade de trabalhar; aliás, o único trabalho que fazem é serem personagens
de Machado de Assis, como observou alguém. Por outro lado, movem-se lenta e
pausadamente, sendo quase sempre objeto de observação e análise do autor: são
gente muito mais de reflexão do que de ação.

6) Apresentando, via
de regi-a, uma visão amarga, pessimista e niilista da vida humana, Machado de
Assis sempre se revela sarcástico e irônico na sua obra: desmascara o ser
humano na sua hipocrisia e torpezas, desnudando-o nas suas entranhas;
desmistifica crenças e instituições sacralizadas pelos tempos; questiona o
sentido da vida. Tudo se desfaz e se desmorona ante o seu olhar aquilino e
arrasa- dor: até mesmo uni casamento que parecia sólido e embasado no pilar do
amor.

ESTILO DE ÉPOCA

Como observamos no início (introdução), Dom Casmurro se enquadra na segunda
fase machadiana, na qual sobressaem traços do estilo realista.

1) Os romances
realistas sempre se fundamentam num caso de adultério, como se pode ver nos
diversos autores da época (Eça de Queirós, Aluísio Azevedo etc). Em Dom Casmurro é
exatamente a suspeita de adultério que sustenta o enredo do romance. Tudo se
constrói em torno desse possível adultério de Capita.

2) Entretanto, não há
uma preocupação excessiva em contar a estória, preocupação maior é com a
análise, uma análise dissecante e profunda, em que o escritor procura desnudar
a personagem e revelar as suas entranhas. Sem dúvida por isso, Machado de Assis
retroage à infância (ab ovo), tentando buscar a origem do problema
focalizado.

3) Por essa razão, a
narrativa é lenta, pausada - anda bem devagar. Aliás, o próprio Machado de
Assis reconhece isso, ao declarar em passagem famosa de Memórias póstumas de
Brás Cubas que vale também para Dom Casmurro: ?...o livro anda devagar; tu
(conversa com o leitor) amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e
fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à
esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam
e caem...?

4) Embora adote a primeira pessoa
como técnica narrativa, o narrador de Dom Casmurro se coloca à distância: no
extremo da vida (velhice), o protagonista masculino reconstitui o seu passado,
assumindo assim um ângulo de visão marcado pela objetividade. Embora seja
personagem da estaria e participe dela, o narrador coloca-se fora e ausente
enquanto narra e reconstitui os fatos (?flash-back?).

ASPECTOS TEMÁTICOS MARCANTES

Muitos aspectos temáticos podem ser detectados na obra de Machado
de Assis, que nunca foi escritor de grandes teses. É um estudioso da alma
humana, que ele procura analisar a fundo e de foi-tua dissecante. Ao longo de
Dom Casmurro muitas idéias interessantes vêm apresentadas.

1) Apoiando-se numa
frase de um tenor, Machado de Assis declara que ?a vida é uma ópera?. Com
efeito, a existência humana é perpassada de fases, o que evoca bem, como a vida
de Dom Casmurro, os atos de uma ópera: há sempre uma fase de ?solo?, marcado
por hesitações e buscas, e unia fase em que se vive um ?duo terníssimo?, cm que
o eu e o outro (Bentinho e Capitu) se aproximam e se harmonizam; depois a coisa
se complica com a presença de um terceiro (Escobar), que se instala para formar
o triângulo que desfaz a unidade; enfim surge um quarto (Ezequiel), que
esfacela de vez o ?duo? da união harmoniosa de outrora. Tudo se vai e se esvai
pela vida, e na alma humana vão ficando as mágoas e ressentimentos dos sons
plangentes que se desfazem na solidão abissal.

2) Tal como ocorre em ?Conto de escola? (conto
machadiano que integra o volume Várias Histórias), Machado de Assis vê a
infância como o pilar que sustenta o adulto: o caráter e as tendências se
forjam no forno da



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