Dona Flor E Seus Dois Maridos
(Jorge Amado)
METÁFORAS DO DUALISMO Sérgio Vallverde Se um é bom, dois é ótimo. ? diz o dito popular ? que ilustra o ponto alto do livro, onde Dona Flor sucumbe aos encantos do marido morto que, depois de saciado, vai embora enquanto ela se entrega ao marido real. Na história mais descompromissada, Jorge Amado faz a defesa da liberdade e do amor, através da criação de tipos exuberantes, contrários às leis sociais. Nesta fase do autor, a luta de classes desce a segundo plano, e o pitoresco, o fantástico (como a volta de Vadinho, o marido morto de Dona Flor) invade o primeiro plano, ao lado do anedótico. O escritor baiano faz uma crônica de costumes, tornando-se mais popular, vivo e sensual. O livro surgiu após Gabriela, Cravo e Canela, o divisor das águas. Dona Flor e seus Dois Maridos conta o caso picante e de escândalo doméstico, numa composição que, em alguns momentos, consegue alcançar certo nível, mas que resvala pelo grotesco e pelo pieguismo. A história é a espantosa batalha entre o espírito e a matéria, entre a doce paz e a noite libertina, entre a vidinha e a ânsia. Encurralada entre o pecado e a sua moral (supostamente) inabalável, Dona Flor entra num ciclo de dúvida, de mortificação, até o dia em que o defunto leva a melhor. Há uma batalha entre vários deuses contra Exu (orixá ioruba, mensageiro dos orixás e identificado pelo pensamento maniqueísta como o diabo católico ou protestante), que protege Vadinho. Quando Exu estava perdendo, o amor e a volúpia de Vadinho ganham a batalha. A obra acaba com Flor andando feliz com Teodoro e Vadinho (nu, como sempre) ao seu lado, pelas ruas de Salvador. Esta parte acentua duas características gerais da obra: a religiosidade que mistura ao mesmo tempo o catolicismo e o candomblé, pondo todas as figuras míticas das duas religiões juntas e eficientemente simultâneas (algo como é a religiosidade baiana, pois Salvador tem mais igrejas que outras cidades do Brasil e, ainda assim, referência como centro das religiões de origem africana). A outra característica vem a ser o fato de que Vadinho e Teodoro são metáforas para o id e o superego, respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo e dado ao caos (no seu caso, o jogo). Teodoro é metódico e controlado (Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar é seu lema, pendurado na farmácia). Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente feliz, invoca o ideal de equilíbrio entre todos.
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