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O Estrangeiro (parte3)
(Albert Camus)

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Asociopatia evolui de Raskolnikov para Meursault na medida em queocorreu uma involuçãomoral: o estado moral do Estrangeiro já nãopode mais ser definido ? perde-se as possibilidades da consciênciamoral, pois não hámais contato da alma com um sentimento de moralidade. A pessoa jánão se desdobrainteriormente para dialogar consigo mesmo e nãose divide em dois: aquele que fez o ato e aquele que julga o ato; umsujeito e um objeto. Nãoexiste uma tensãoentre o ser e o ?dever ser?, entre aquilo que se é e o seuideal ( o que se quer ser). Sendo assim, tal pessoa nãoconsegue dialogar com os outros: só é possíveldialogar com aquele que dialoga consigo mesmo. Os aspectos da almahumana devem ser representados interiormente ou personificadosimaginariamente para serem confrontados: uma realidade ?realizada?somente pode ser julgada em funçãode outra realidade idealizada, que faz parte da realidadepotencialmente ? como uma ?possibilidade espiritual?. E umhomem sem consciênciamoral nenhuma está numa alienaçãointelectual completa: nãotem desespero nenhum, é um sociopata. Nesse sentido, estánum estado inferior a um cachorro que, pelo menos, tem uma mínimanoção decerto e errado quando sabe se fez xixi no lugar determinado pelodono. Curiosamente,os intelectuais que nãorespondem moralmente, nem se responsabilizam pelas suas afirmaçõesestão num estadosemelhante a Meursault. Ou ainda estãono estado de Raskolnikov, como Stedile, posicionando-se numa moralimaginária ?messiânica? e apostando num Bem futuro eimaginário. Para isso usam artifícios racionalizadorescomo o relativismo histórico que substitui a verdade pelosseus próprios interesses: o verdadeiro passa a ser aquilo quecontribui para a dinâmica da história, isto é,para a formaçãoda nova sociedade. Neste caso, a verdade é científicase é militante: pode-se mentir desde que se tome a perspectivahistórica correta e ?transformadora?. Alguns dessesintelectuais até sonham em ser um tipo de Raskolnikov, masacabam resignando-se com um estado de Meursault ? como parece ser ocaso do professor que protagoniza o filme ?InvasõesBárbaras?. Entretanto,quem assumiu o ponto de vista raskolnikoviano acabará chegandono estágio Meursault, pois já fez uma sinistra troca:abriu mão dacapacidade moral humana para ganhar um poder destrutivo, sedutor,amedrontador e demoníaco: transmitir essa amoralidade e o seumal para os outros, como uma ?peste?. Aliás, no livro ?Apeste? Camus mostrou que o problema (ou a falta de problema) deMeursault é contagioso. Tal opção,pelo menos, alivia da tensãomoral e a pessoa nãosofre mais dessa maneira. A pessoa fecha-se diante de uma cobrançamoral feita em nome da realidade, adotando uma recusa moral parapoder ter uma liberdade militante maior. Afenomenologia do homem revoltado (ou do militante esquerdista), foifeita pelo próprio Camus que descreveu ?a morte daliberdade, o domínio da violênciae a escravidão doespírito? no livro ?O homem revoltado? (Traduçãode Valerie Rumjanek, SãoPaulo: Record, 1996). Tais intelectuais revoltados geralmente têmuma ?revolta cerebral? que pretende incentivar a revolta dosoutros, mas depois de muito abusarem da própria consciênciamoral, perdem o senso moral tendendo para um extremo quasecatatônico, como Meursault. Essaé a síndrome geral da intelectualidade brasileira:começa optando por um ato mal. Em seguida, nega a realidadedesse malefício e ainda fica na defesa, como se o criminosofosse o acusador; nessa fase, ele ainda finge indignação.Depois, coloca-se numa postura de quem é superior àqualquer acusaçãoe não se importamais com acusações.Aqui já está invertido o esquema ideal da realidade: oque era verdadeiro, bom e bonito passa a ser alienação;o novo Bem e a nova Verdade passam a ser dados pela sua própriapreferênciaarbitrária. A fase final é a dessensibilização,quando já nem se pensa mais no assunto. É como setivesse dobrado a aposta: depois de fazer um crime ou um erro aindasente-se melhor moralmente: é algo grotesco. Como escreveuCamus: ?estamos na época da premeditaçãoe do crime perfeito. Seu álibi é irrefutável: afilosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformarassassinos em juízes.? Notávelé o extremo contraste entre Meursault e aqueles que comoSócrates, Platão,Aristóteles, Santo Agostinho e os Padres da Igreja buscavamconstantemente a meta do próprio aperfeiçoamento moral.Para eles o maior bem a ser desejado, era o bem moral!



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