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H. Bergson E M. Proust
(Cassiano Ribeiro Santos)

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A memória conhece inúmeros graus de contração e descontração. Na vigília, principalmente nas ações impetuosas, a memória encontra-se toda contraída em forma de movimentos e mecanismos comportamentais; no sonho, ela apresenta-se como imagem e indeterminação. Entre os dois graus extremos, a memória apresenta uma diversidade de estados e matizes: o devaneio, a distração, o hábito, o ensaio e a ação consciente. A função da memória, pelo menos em seu aspecto utilitário, é orientar as ações oferecendo a consciência casos semelhantes ao ato em questão, por exemplo, ao andar por uma cidade, a memória me oferece o trajeto das ruas percorridas outrora. Esta é uma função reducionista. Ao servir aos interesses da minha ação, a memória só oferece lembranças mutiladas pelo corte da utilidade, desprezando as nuanças, os tons e as particularidades que ora não nos interessa na lembrança em questão: a lembrança de um trajeto percorrido mais se parece com um mapa do que com as ruas coloridas que experimentamos quando sonhamos andar pela mesma cidade. No sonho, o vínculo entre a memória e a ação é tão lasso que a cidade costuma aparecer em sua luxúria original, com uma vivacidade de detalhes muitas vezes maior do que a vivenciada ao percorrê-la de fato, considerando que percebemos muito mais do que registra a nossa consciência atribulada. Esta articulação funcional entre a memória e a ação explica a constituição de nossos hábitos: estes, o conjunto de nossas ações inconscientes e mecânicas, nada mais sendo que a articulação cristalizada entre uma atitude e a lembrança acumulada de sua incessante repetição. Assim é que posso percorrer o trajeto entre minha casa e o local de trabalho como um autômato de tão conhecidas que são, do meu corpo, as ruas habituais. Digo do meu corpo por ser nele que os hábitos se inscrevem, constituindo uma memória involuntária e inconsciente, feita de conexões motoras, de ações e reações, de estímulos e respostas. Quando estamos escrevendo a mão, às vezes hesitamos entre as possíveis grafias de um fonema, por exemplo, S ou Z, então, em uma folha avulsa, escrevemos a palavra com uma letra e depois com a outra e logo sabemos, ou melhor, a nossa mão sabe qual a ortografia correta. Quando, porém, me recordo das vezes em que usei deste artifício, já não é a memória motora que estou invocando. Trata-se de uma outra memória, espiritual e composta de lembranças puras, de um substrato que lógicos antigos como Gotrob Frege chama de sentido; por exemplo, quero recordar uma canção da qual não possuo, nesse momento, nenhuma nota na consciência, apenas um sinal extrínseco, uma circunstancia a qual ela está indissociavelmente ligada; posso ouvir uma centena de outras músicas e saberei distingui-las desta que desejo recordar e da qual possuo o sentido embora não encontrando em meu cérebro nenhuma gama sonora correspondente. Se este sentido estivesse no inconsciente eu não poderia usá-lo como critério de identificação (claro está que esta memória espiritual não se encontra localizada no cérebro como defende a ciência do século vinte e um). A realidade metafísica da memória, a sua insistência no tempo, o tempo como uma dimensão ontológica, como o próprio Ser universal são as memoráveis teses do filósofo Henri Bergson em seu fabuloso livro Matéria e Memória, do qual esta página é um pálido decalque, uma lembrança quase mecânica de sua leitura recorrente e habitual.

Marcel Proust possuía uma sutil sensibilidade para os movimentos da vida. Apesar dos críticos reportarem sempre a sua obra à temas clássicos como Memória, Tempo, Amor..., vemos constantemente ele se debater em considerações sobre o Movimento das quais citaremos dois exemplos: amava ele u`a mulher chamada Albertine que impreterivelmente chegava-lhe atrasada nos encontros, geralmente marcados no final da noite. Um homem razoável veria nesta conduta um signo do desinteresse, da fatuidade e, judicioso, de um coração leviano. Por alguns momentos ele tende a estas interpretações, entregando-se à percepções errôneas e a um mau sentimento: o ciúme; depois, elevando esse problema ao âmbito do pensamento, chega a uma insólita conclusão: ...Normalmente, na sociedade em que vivemos, u`a mulher pode cumprir em média oito à dez compromissos diários em sua agenda atribulada; Albertine entretanto, agendava dezesseis, dezoitos..., sendo as suas últimas horas dedicadas ao nosso romance. Não posso entender a velocidade com que ela cumpria tantos compromissos sociais senão como o desejo de encontrar-se comigo ao final da noite, embora, necessariamente atrasada...; outro exemplo mais antológico são o dos campanários de Martinville. Quando criança, ele passeava sobre um triciclo nos jardins do seu bairro e a imagem de três árvores permutava-se a sua frente, ora em linha reta, ora frontais, ora em diagonal... ao sabor das piruetas que dava no brinquedo. Anos depois, já adulto, encontra-se passeando de carruagem em Martinville e vê à distancia as três torres de um campanário realizar um aparente movimento em tracejo semelhante ao das árvores na infância. O movimento de translação arrebata seu espírito: como as árvores e as torres, o presente e o passado giram na sua consciência, as faculdades da percepção e da memória transbordam-se no movimento sentido ? a fisiologia moderna explica tais DEJÁ VU como um curto-circuito entre as funções cerebrais ? produzindo, junto com os exemplos da madeleine e do tropeço nos degraus, uma das mais sublimes e originais experiências não-matemáticas do espaço-tempo: o Tempo e o espaço se alternando como um paralaxe no espírito!

TEXTOS DO AUTOR: WWW.SHVOONG.COM (EM PORTUGUES) PESQUISAR CASSIANO



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