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Escritores Alemães e o Conflito Afegão
(José Pedro Antunes)

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"Quem toma um povo como refém, com a finalidade de impor seus interesses, é um criminoso civil e um criminoso de guerra. Bombardear o povo sérvio até lançá-lo na penúria foi um crime assim. Precipitar o povo afegão na miséria desmedida e alçar ao poder, por meio de bombas, um amontoado de bandidos corruptos que se chama Aliança do Norte, foi um crime desse tipo", escreve o escritor Franz Xaver Kroetz, e ele escreve também quem carrega, a seus olhos, a responsabilidade por esses crimes: os EUA.

Ainda que nunca formulados de maneira assim tão superficial, protestos semelhantes contra a guerra no Afeganistão podiam ser lidos nos últimos dias de parte de inúmeros escritores: Rolf Hochhuth, por exemplo, Walter Jens, Christoph Hein, Walter Kempowski ou Martin Walser. Absolutamente não é tão fácil enumerar todos os fatores que, na polêmica de Kroetz, são preteridos, falseados ou calados. Uma seleta: Que o sérvio Milosevic atacou primeiramente a Croácia, a Bósnia e os albaneses de Kosovo; que o Afeganistão, inicialmente, foi ocupado pela União Soviética e lançado na miséria; que os EUA sofreram um ataque terrorista sem precedentes, e que o Taleban não entrega os seus líderes; que os afegãos festejam o desmantelamento do Taleban.

Kroetz, portanto, coloca a situação diferentemente do que se poderia esperar de um escritor, não o fazendo de forma mais diferenciada, mais sensível, mais refletida do que um político, antes o faz de forma decididamente simplória – e com ele, alguns de seus colegas.

Com toda a simpatia que se possa ter por esses autores, em razão de seus indubitáveis méritos literários, é impossível fugir à suspeita de que eles, com algumas de suas declarações, verdadeiramente simplificam as coisas.

Quase que em nenhuma parte se deram a ler, nas declarações públicas de escritores alemães sobre as conseqüências do 11 de setembro, novos conhecimentos ou argumentos surpreendentes.

Em vez disso, o que se pode ler são atribuições de culpa surpreendentemente estereotipadas, precário conhecimento de causa e, apesar das mudanças substanciais ocorridas na situação mundial desde 1989, uma tendência notável a reiterar publicamente, e com palavras patéticas, uma opinião há tempos cultivada. Do ponto de vista intelectual, para dizer o mínimo, algo insuficiente.

Publicada neste veículo, a declaração dos escritores alemães em favor "da posição do governo alemão em relação ao conflito n Afeganistão" traz, se não novos argumentos, na verdade uma lufada de ar fresco ao debate. Os críticos da guerra no Afeganistão assumem de bom grado o status de dissidentes ou – como se dizia nos anos cinqüenta ou sessenta, quando muitos deles definiram suas tendências políticas – de não-conformistas. Mas, com seus apelos em favor da paz, são hoje veiculados em alguns dos jornais e revistas de maior tiragem no país. Na revista "Stern", conseguiram com o seu protesto até mesmo matéria de capa. Os que apóiam o governo alemão, ao contrário, que agora se articulavam, tiveram até aqui pouca publicidade, e uma coisa com certeza eles são: não-conformistas dentro do seu funcionamento literário, eles que se posicionam contrariamente ao fato de que, sobre um tema de tal interesse, não importa quem possa se arvorar a falar "em nome dos escritores alemães".



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