UMA EXISTÊNCIA, MUITOS EVENTOS
Na quarta-feira, 13 de dezembro de 2000, Geraldo Virgínio Ribeiro lançou seu livro “Eventos de Uma Existência” (182 páginas, Ética Editora). O acontecimento se deu na Academia Imperatrizense de Letras (AIL), para aonde acorreram amigos e familiares de Geraldinho (como ele também é chamado), além de membros da AIL.
Geraldo Virgínio nasceu no Ceará e veio para o Maranhão aos cinco anos de idade, junto com a família: por causa da seca, o pai, Cícero, “vendeu o que possuía” e saiu de Campos Sales junto com a mulher, Antônia, que estava “em adiantado estado de gestação”. O percurso foi longo e acidentado, iniciado em cima de caminhão, continuado em barco e finalizado no lombo de animais. O destino: Balsas, onde logo nasceu o irmão de Geraldo, José de Ribamar.
O livro, como diz o título, é um rico apanhado de “eventos” da vida do autor, que conta muita coisa e, com certeza, tem mais para contar. Afinal, quem já viveu 73 anos tem essa, digamos, autoridade. No caso de Geraldo Virgínio, então, some-se, à sua riqueza de anos, seu aguçado poder de observação, a sensibilidade estética, a cultura geral, a variedade e densidade das atividades que exerceu e a capacidade de expressar isso tudo em palavras, boas palavras.
Ceará, Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins, Goiás, Brasília... São alguns dos pontos do país por onde passou Geraldo Virgínio, na vida de seus ofícios e no ofício da vida. A obra – espécie de autobiografia – cabe bem na feliz expressão de Ortega y Gasset, quando disse que o homem é ele e suas circunstâncias: “Eventos de Uma Existência” é Geraldo Virgínio e as circunstâncias das quais ele foi agente ou usuário ou testemunha.
Com o aval de seu tempo de vida e de ofício, o cronista Geraldo Virgínio transcreveu, na primeira pessoa, o que sua memória e seus apontamentos guardaram ao longo dessa variada existência. O autor foi prático de farmácia e auxiliar de enfermagem. Porteiro e padeiro. Fiscal de luz e secretário de prefeitura. Adjunto de promotor e comerciante. Trabalhou na Rodobrás, a empresa responsável pela construção da rodovia Belém—Brasília. Assistiu a Bernardo Sayão em seus momentos finais, após o trágico acidente que pôs termo à vida do intrépido engenheiro. Como funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio), Geraldo Virgínio foi atendente de enfermagem e chefe de posto, tendo auxiliado nas frentes de atração a índios não pacificados.
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Conheci Geraldo Virgínio em 17 de julho de 1997. Ele me trouxe os originais de seu livro, dos quais deixou-me cópia, uma semana depois, “como prova de estima”, no dizer de sua singela dedicatória de quatro linhas. Dá gosto ver as quase 370 páginas cuidadosamente datilografadas. Depois daquele segundo contato, recebi, ainda em julho de 1997, correspondência onde ele fala das “conversações” mantidas para a publicação do livro. Reconhecia “as prementes dificuldades”, mas demonstrava que não iria desistir, ainda que para isso tivesse que poupar ao longo tempo os recursos necessários à edição da obra: “Acredito que cabe a cada um assumir as suas responsabilidades” -- escreveu Geraldo --, demarcando que “(...) se um ano não for suficiente para o lançamento deste sonho, rolarei mais algum tempo (...)”.
O setentão franzino deu provas de sua “rexistência”. Três anos depois sai “Eventos de Uma Existência”, que assinala a sua segunda “vitória régia”: a primeira foi a filha Vitória Régia de Oliveira Ribeiro, falecida, a quem o pai saudoso homenageia e dedica o livro. Agora, depois de tanta luta, a régia vitória de publicação de sua obra.
Geraldo Virgínio Ribeiro: uma existência, muitos eventos, grandes lutas e, pelo menos, duas vitórias -- uma, feita de carne, osso e saudade; a outra, de papel, tinta e memória.
Imperatriz e região ganharam mais um escritor. A História ganhou mais um cronista.
(EDMILSON SANCHES -
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