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Esperando Godot
(Samuel Becket)

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A vida é absurda? Os dois vagabundos de Beckett não são absurdos, mas um nosso retrato, algo distorcido, imagem de um espelho em que não nos queremos ver. Dois malucos? “Todos nascemos malucos. Alguns permanecem assim.” Será que não vemos os malucos que somos? Seria uma justificativa, a nossa maluquice? Justificativa de quê?
Como somos inexauríveis, vamos falando, vamos ouvindo. “Todas a vozes mortas. Fazem um ruído de asas, de folhas, de areia. De folhas. Falam todas ao mesmo tempo. Cada uma para si. Talvez sussurram, murmuram, cochicham. Fazem um ruído de plumas, de folhas, de cinzas. De folhas.” Falamos demais, esquecemos de ouvir a nossa própria voz, esquecemo-nos de que o que ouvimos é a nossa própria voz. Ruídos. Pensamos que é poesia. Ou o ruído que quebra a poesia. O ruído quebra ou constrói a poesia? Isso fica para os teóricos. Um vaso quebrado no chão, como um deus em pedaços, não é poesia? Os cacos falam. Quando não falam, encantam. Deus é a água derramada, que existe além dos cacos. Deus são os cacos e a água.
O ateu Beckett fala em Deus. Não é tão ateu assim. Tem que provar que Deus é cruel. Não está em questão a existência de Deus, mas a sua justiça – como a entenderíamos se é de Deus? Se nós, homens, somos tão complexos? Deus não nos fez anjos, mas esta complexidade de matéria e espírito, loucura e ternura, razão e estupefação? Quereríamos ser anjos? Queremos ser esta mixoieira que somos. Para o bem ou para o mal, para a salvação ou a danação. Vladimir e Estragon se interrogam sobre Deus e a salvação de suas pobres almas. Não acreditam nem em Deus nem nas almas – mas por que então se interrogam?
“Você acha que Deus está me vendo?” A pergunta é infantil, mas é a mesma que nos fazemos. A resposta parece mais ingênua: “Você tem que fechar os olhos.” Parece, mas é a mesma proposta que Descartes se fez: fechar os olhos e ver a alma – e chegou à demonstração de que Deus existe. Se não existisse, Beckett não estaria preocupado com a salvação: “Um dos ladrões foi salvo. É uma porcentagem razoável.” Apesar da brincadeira, ou por isso mesmo: quando não temos respostas, levamos na brincadeira. “E se a gente se arrependesse? De quê? De ter nascido.” Novamente a brincadeira, santa válvula de escape. Mas não se pode negar a preocupação com um além-existência, a alma e Deus.
Como o pensamento humano é muito limitado, ou o pensamento sem Deus isola-se em si mesmo, num beco sem saída, resta-nos a banalidade das pequenas coisas. “Existir dói, mas por que não se abotoar? Não se deve ser desatento com as pequenas coisas.” Como não temos respostas, dizemos que tudo é relativo. Como se fosse uma desculpa razoável. “Gente é um bicho muito ignorante.” Acreditamos mesmo que somos assim ignorantes? Que não somos capazes de chegar a solução nenhuma?
A nossa tábua de salvação é a poesia. Mas às vezes essa tábua é muito penosa, como uma cruz ou uma forca: “Que tal se a gente se enforcasse? É um modo de se masturbar. A gente goza? Completamente. E onde cai, nascem mandrágoras. É por isso que elas gritam quando a gente as colhe.”
“Esperando Godot” é pleno de humor, mas o riso é proibido. “Você me faria rir, se não fosse proibido.” A vida é trágica. “Eu vou me acostumando ao esterco à medida que piso nele.” Sempre à espera de uma impossível resposta. À espera de Deus. Godot seria um pequeno Deus? Seria um Deus chamado acaso? É esse acaso que dirige o diálogo dos dois elefantes (estou lembrando o “Cemitério de Elefantes”, de Dalton Trevisan). E se Godot não vier? Vejam que não se discute essa hipótese. Godot vem. Deus vem.
É a mesma idéia do poema de Kavafis: “E se os bárbaros não chegarem?” Estamos acostumados ao esterco, mas “o essencial não muda nunca”. Talvez os bárbaros cheguem. Deus, no final, chegará. Não podemos, nós, chegar à inércia. Como Estragon e Vladimir, um dizendo para o outro: “Então, vamos?” E o outro respondendo, como se fosse inevitável: “Vamos.” E os dois não saem do lugar. A única ação é o pano que cai.



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