Dom Quixote
(Miguel de Cervvantes)
Paráfrase de texto extraído do Don Quixote de Cervantes.Dirijo me a vós para rebater e fazer-vos ver a falta de motivo que estão todos que me incriminam do que afligem-se e da morte de Crisóstomo. Logo, exorto-vos a crer os ajuizados. Fez-me Deus mui bela, segundo vós me elogiais; e tanto não podeis subsistir-me e, pelo bem que a mim aparentam e dizeis, chegam a conjecturar que estou sujeita a retribui-vos. Com a sabedoria que o altíssimo me concedeu, sei que toda a beleza é bem quista; mas não compreendo por que causa de eu ser bem quista esteja responsabilizada a bem querer, podendo vir a ser repugnante o enamorado de tal beleza. Como o repugnante é detestável fica inadequado afirmar-se: "Quero te formosa; e vós mesmo que o não igualam-se, deveis também bem querer-me". Mas, presumindo que sejam as belezas de partes correspondentes, nem por tal irão igualar as vontades, logo que nem todas as belezas atraem; algumas seduzem a visão sem cederem por elas os desejos. Se todas as formosuras encantassem e cedessem, andariam os desejos confusos e desnorteados, sem parada, pois sendo infinitos os objetos belos, infinitos seriam os apetites, e pelo que ouço, o verdadeiro amor não se fraciona, e deve ser espontâneo e não involuntário. Assim sendo, como penso que é, por que requereis que sujeite a vós o meu querer pelo domínio, comprometendo-me pelo fato de dizerdes que me quereis bem? Falai-me: se assim como Deus me fez bela, me fizesses aborrecível, seria sensato reclamar de vós por não afeiçoarem a mim? Sabeis pois que não pedi a beleza que tenho; como ela é, de graça recebi do alto, sem rogar preferir; assim como a cobra não é responsável por veneno possuir, posto com ele mortificar, pelo motivo de lhe ter sido doado pela natureza, nem eu devo ser advertida por ser bonita, que a beleza na mulher honrada é como fogo interrompido, ou como a espada afiada, que nem o primeiro queima e nem o segundo fere a quem deles se achega. Pois se a compostura é uma das qualidades que o corpo e a alma mais enfeitam e embelezam, porque há de se privar a que é afeiçoada por ser bela, para se equivaler-se ao propósito de que por seu querer, com seu vigor e potência, pretende que eu destrua? Nasci pois sem restrições; e para poder viver espontaneamente escolhi a solidão dos campos; as árvores desta montanha são as minhas amigas; as límpidas águas destes regatos, meus espelhos; com as árvores e as águas comunico minhas reflexões e lindezas. .
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