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Doutor por Correspondência
(Marcos Rey)

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O jovem Zeca vivia com sua mãe e seu pai numa casa confortável. Um dia, eles receberam uma carta do primo Emílio. O primo contava que estava para alugar um apartamento ou uma casa, mas que, enquanto não fechasse o negócio, queria passar uns dias hospedado. Embora não visse os parentes há anos, a carta tinha um tom muito íntimo e terminava com um “Morro de saudades”.
A carta chegou às onze; ao meio-dia o Emílio já estava lá, com sua mala e sua simpatia. Durante o almoço, só falou duma coisa: sua aversão aos hotéis. Na sobremesa, contou de seus planos na capital. Iria construir edifícios. A família, admirada, perguntou se ele tinha feito faculdade de engenharia. Ele explicou que não. Em dezembro, se passasse nos exames, receberia o diploma de arquiteto... por correspondência.
Os dias foram passando. Primo Emílio comia, bebia, assistia TV com os pés em cima da mesinha, era um folgado. Um belo dia, anunciou: “Começo amanhã.” A Mamãe ficou animada: “Onde vai ser seu primeiro edifício?”. Mas que edifício que nada. Primo Emílio tinha comprado vários pacotes de um pó dourado. Explicou que ia fabricar bebidas com aquilo que chamava de puro uísque escocês. Papai ficou espantado: “E a destilaria? Vai precisar de uma, não?”. Que nada. Primo Emília era um homem prático: bastava o pó, álcool e água. E mais outra coisa: a banheira de Papai.
Em pouco tempo, nos fundos da casa, havia uma banheira cheia de um líquido que ficou azul, depois esverdeado e, finalmente, roxo. Uma bela cor. A segunda etapa foi encher as garrafas e fabricar os rótulos. A bebida foi batizada “Rum das Antilhas” e, para surpresa da família, até que vendeu bastante.
Emílio estava ganhando dinheiro e já pensava até em se mudar. Mas queria comprar a banheira. Papai ficou animado. Dava a banheira de presente para que Emílio se fosse. Só que, no dia seguinte, apareceu a polícia. Ele quase foi detido por fabricar bebidas sem autorização. Era o fim do negócio. Mas Primo Emílio não se deu por vencido. Já tinha outra idéia sensacional.
No dia seguinte, comprou um fole e colocou uma placa na frente da casa: “Ao Sultão dos Banhos Turcos” — Reumatismo, artritismo, doenças da coluna, paralisias em geral — Duchas quentes e frias, segundo o moderníssimo processo Emilius.
O tal processo Emilius era o seguinte: o cliente sentava na banheira e, com o fole, Emílio aplicava um sopro de ar frio na espinha. Se não fizesse bem, mal não ia fazer.
Demorou para aparecer um cliente, mas apareceu. Era um velhinho todo encarangado. Emílio examinou-o e sentenciou: “É sopa.” Meia hora depois, uma ambulância levava o velho, às pressas, para o pronto-socorro. Mais um negócio tinha ido por água abaixo.
Então, uma surpresa: pelo correio, chegou o diploma de arquiteto por correspondência. Primo Emílio ficou exultante. Passou o resto do ano fazendo planos numa prancheta que Mamãe lhe deu. Ia revolucionar a arquitetura, ganhar rios de dinheiro. Mas a animação durou pouco. Saiu no jornal a notícia de uma verdadeira fábrica de diplomas de curso superior, localizada no Rio de Janeiro, cujo reitor já estava atrás das grades.
Primo Emílio foi o último a ver a notícia. Ficou arrasado. Foi para os fundos e, quando voltou, estava num pileque bravíssimo: tinha mandado brasa no que restara do seu “Rum das Antilhas”. Completamente bêbado, ele chutou a prancheta, chorou, quase vomitou. Aí abraçou Papai, agradeceu pelo tempo que ficara em casa e disse que ia embora. Papai, homem bondoso, não deixou o Primo Emílio sair naquele estado. Disse: “Fique ao menos até amanhã.” Primo Emílio concordou. E ficou mais cinco anos.



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