ESTAMOS MAIS SOLITÁRIOS
(Carlos Roberto Drabowski)
ESTAMOS MAIS SOLITÁRIOS. Se alguém despertasse hoje, após ter dormido por 40 anos, como o personagem de Rip Van Winkle (de Washington Irving), ficaria espantado com o que a dita civilização moderna se transformou. Ou melhor dizendo, como se degenerou. E ele se perguntaria: Como é possível que mais de 30 pessoas consigam andar num ônibus por mais de meia hora, sem ao menos trocar qualquer palavra uns com os outros? Ou 30.000 delas andarem aos encontrões, ao sol do meio dia, só se detendo eventualmente para se xingar? Indivíduos que andam como zumbis, num processo de auto isolamento, entre dois fones de ouvido, onde a visão de seus semelhantes mais se parece com a imagem de objetos inanimados. A cortesia e a sociabilidade passaram a ser palavras sem sentido num universo onde o individualismo reina absoluto. Curiosamente, nos locais onde existem maiores aglomerações urbanas, é onde as pessoas se sentem – e estão – mais solitárias. Tudo parece um grande mecanismo, onde as engrenagens são as pessoas, que giram num único e enfadonho sentido, compelidas por uma força que nem mesmo elas conhecem e que lhes dizem que não podem parar jamais. Caso você precise parar alguém na rua para pedir alguma informação, prepare-se para aquele olhar de “você está gastando meu precioso tempo”. O tempo é economizado todo o tempo, para se gastar não se sabe exatamente onde, porque nunca ninguém tem esse produto que tanto economiza. O que se constata é que a tecnologia vem conduzindo a civilização moderna a um desajustamento de conduta ocupado em pulverizar os sentimentos humanitários. A gana em produzir mais para consumir mais é tão desenfreada que os valores espirituais ficam relegados a um plano secundário. O resultado disso é o esfacelamento da família, o divórcio, o abandono moral dos filhos, a descrença no casamento e na própria vida. As tendências modernas ao relacionamento casual e rápido, o “ficar”, ganham mais força no dia a dia. Entretanto, de maior gravidade é o efeito do distanciamento familiar: maior consumo de álcool e drogas, depressão, desrespeito à vida e aumento em progressão geométrica da violência. Crescem assustadoramente os casos de suicídio. O que antes era filosoficamente ajustável às situações específicas de crise existencial, hoje é regra: o suicídio está estreitamente ligado a um sentido de vida. Não ter um sentido para viver torna-se um encargo intolerável. O motivo para viver pode vir a ser um excelente motivo para morrer. Nos países onde o avanço tecnológico é maior, há uma relação paralela com o aumento de suicídios. Exemplo disso é o Japão: Em 2003 foram registrados 34.427 casos de suicídio. Mas o fenômeno é mundial. Segundo divulgação da OMS – Organização Mundial da Saúde, cerca de 3. 000 pessoas por dia cometem suicídio no mundo, o que significa que a cada três segundos uma pessoa se mata. Segundo a mesma fonte, para cada pessoa que consegue se suicidar, 20 ou mais tentam sem sucesso. O suicídio é atualmente uma das três principais causas de morte entre os jovens e adultos de 15 a 34 anos, embora a maioria dos casos aconteça entre pessoas de mais de 60 anos. O que se explica, pois o avanço da idade provoca um ainda maior distanciamento e segregação do relacionamento social. A razão de tudo isso é uma só: Estamos sós. Cada vez mais abandonados e vítimas do próprio casulo construído com os falsos valores do consumismo, da materialidade e da valorização doentia do ter em detrimento do ser. Carlos Roberto Drabowski – jornalista e advogado. VISITE nosso blog. Endereço: http://mirantesul.blogspot.com
Resumos Relacionados
- O Suicídio
- O Suicídio
- Risco De Suicidio
- Pactos Suicidas No Japão
- Pactos Suicidas No Japão
|
|