Dona maria
(Rafaela Plácido)
Dona Maria acordara mais cinzenta do que nunca.Nem o sorriso do vizinho novo ao lado lhe despertara o desejo de alongar os braços e espreguiçar-se, como a gata em telhado de zinco quente que noutros tempos fora.Sentia-se velha e abandonada… Mais do que isso!... Sentia-se como uma prostituta desdentada, de carnes lassas e escorregadias a quem os homens olhavam com um sentimento de compaixão, depois de a terem possuído até ao mais íntimo do seu ser.Já fora nova, bela e respeitada!.. Mesmo por reis e príncipes, que não se escusavam a longas viagens enquanto deles se apoderava o arrepio de quem desvenda o lado mais íntimo de uma mulher, precipitando-lhe o destino.Até nome de rainha lhe deram e ela, de tantas do mesmo nome que há na terra não se podia queixar da sua graça e de quem fora noutros tempos…Mas tinham passado tantos anos!...E como os homens eram ingratos!...Ah!... Tantos testemunhos poderia dar da sua fidelidade!... A quantas tragédias iminentes não resistiu durante toda a longa vida de trabalho!...Entre muitas peripécias, lembrava-se bem daquela vez em que um bêbado, qual locomotiva desenfreada, irrompera por ela abanando-lhe as entranhas, perturbando-lhe o equilíbrio…Gritos, pânico… Mas, apesar de já não ser nova, conseguiu controlar-se, restabelecendo a calma… Tudo fora tão dramático que ao homem quiseram até linchá-lo…E lá continuava ela recordando com saudade aqueles mais de cem anos, rio em baixo, dividida entre uma e outra terra das duas que a viram nascer… Nunca se furtara, contudo, ao imenso abraço, estreitando laços, criando união, diluindo margens…Em abono da verdade, era obrigada a confessar, sempre tivera uma predilecção pela cidade cujo santo padroeiro morava mesmo ali ao lado, nas Escarpas das Fontaínhas… Talvez fosse uma questão de fé…, um pedido de protecção para o futuro em que, no meio de grandezas e misérias, irremediavelmente se esconde a implacável velhice… Agora, era forçada a concluir não lhe ter adiantado de nada… Nem os homens nem o santo a tinham amparado…Ali estava naquela espécie de lar de terceira idade, onde o único remédio que lhe davam eram comprimidos para a sonolência e o esquecimento de si própria…Porém, as festas ao santo ficavam de ano para ano mais animadas, enchendo-se a cidade de luz e de cor…Ah!...Como gostava de festas!... – E a memória dos templos gloriosos inundou-a de um rasgo de imaginação e audácia.Dona Maria resolveu por fim esfregar a remela.Olhou a vizinhança.Lá estava o S. João que, de tanta capacidade milagreira, estava agora transformado em ponte, braços estendidos como quem pede uma ousadia de mulher…Espreguiçou-se então languidamente. À ideia ocorreram-lhe as voltas que o mundo dá e o império tece. Alongando a vista em direcção ao mar, viu um letreiro que dizia:“PORTO, PATRIMÓNIO MUNDIAL”Imaginou-se logo, não a jovem de outrora mas sim uma senhora idosa e distinta, resplandecendo na noite, sentindo-se então ainda capaz de despertar aos homens um olhar de admiração… De repente, o seu corpo cobriu-se de uma misteriosa aura, ao mesmo tempo sedutora e enigmática…Devolveu por fim o sorriso ao vizinho novo que lhe estendia os braços e, num gesto gracioso de rainha, apresentou-se de seguida:? Bom dia!...Sou a PONTE DONA MARIA e faço parte da história desta cidade…
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