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Última Tentação De Cristo
(Nikos Kazantzakis)

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A trajetória de Jesus Cristo numa releitura na qual, na cruz, ele imagina como seria a sua vida se, ao invés de assumir o peso da salvação dos homens, ele escolhesse viver uma vida comum, com esposa, filhos e um dia-a-dia normal.
A Última Tentação de Cristo faz uma leitura dos últimos anos da vida de Jesus Cristo: suas pregações, milagres e, é claro, sua morte na cruz. Porém, em vez de seguir fielmente os evangelhos, Kazantzakis permitiu-se imaginar os conflitos vividos por um indivíduo que, de acordo com os católicos, é simultaneamente Humano e o Filho de Deus. Como conciliar duas naturezas tão contraditórias em um único corpo?
Como Homem, podemos presumir que Jesus estivesse sujeito às tentações da carne. Por outro lado, como Ser Divino, sua falibilidade deveria ser neutralizada. Assim, embora acabe seguindo com bastante fidelidade a trajetória de Jesus explicita nos Evangelhos, o roteiro toma imensas liberdades com relação ao caráter de seus personagens o que deu origem (na época de lançamento e até hoje) a uma série de discussões complexas que, infelizmente, acabaram despertando a ira dos fundamentalistas cristãos.
Um exemplo é o próprio Cristo: embora tenha consciência de sua própria divindade, Jesus reluta imensamente em seguir seu destino, chegando ao ponto de construir cruzes para os romanos a fim de levar Deus a odiá-lo. Finalmente, ao perceber que sua crise espiritual era não apenas à sua própria natureza, mas também a Deus, Cristo assume sua condição de Messias e logo arrebanha uma infinidade de seguidores.
Ainda assim, A Última Tentação de Cristo não ignora a dualidade de seu protagonista e é justamente a fragilidade do lado humano de Jesus e seu esforço para contorná-la que o tornam tão fascinante.
Ao mesmo tempo, tanto o livro como o filme surpreende o espectador com um Judas completamnete diferente daquele retratado na Bíblia: aqui, o apóstolo torna-se a figura mais próxima de Jesus, funcionando como seu principal confidente e, ocasionalmente, conselheiro (o que, obviamente, deve ter irritado muito os devotos). Ansioso por uma rebelião contra os romanos, Judas frustra-se ao perceber a hesitação do mestre, que somente aos poucos compreende que, afinal de contas, seu objetivo final na Terra é morrer barbaramente a fim de aproximar Deus dos homens e, para viabilizar seu calvário, é Cristo quem convence Judas a trai-lo para os romanos.
Porém, o maior motivo da ira dos católicos deve ter vindo durante a crucificação, onde Jesus, em meio à dor e ao sofrimento, alucina com uma existência na qual seria apenas um homem comum, que se casaria duas vezes (uma delas com ninguém menos do que Maria Madalena), teria filhos e envelheceria pacificamente, um desejo ao qual renega para cumprir sua missão divina.
Essa é a mensagem mais bonita sobre o sacrifício final de Cristo, que, ao contrário do que a Bíblia indica, escolheria morrer pela Humanidade, em vez de ser praticamente conduzido a isso por uma decisão superior.



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