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?o Prazer De Eliza Lynch?
(Anne Enright)

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Bela e vulgar, demasiado exuberante e espalhafatosa para os padrões europeus, sociedade onde jamais poderia ser considerada uma senhora, Eliza cultiva o prazer do luxo e da ostentação. O seu objectivo é o de submeter as senhoras do Novo Mundo pelo deslumbramento. Ser idolatrada. No momento em que conhece Solano López, em Paris, a sedutora coccote vê a oportunidade única de dar um volte-face na sua vida: emigrar para outro continente e recomeçar a vida do zero. A acção é narrada a duas vozes: a de Eliza e a do Dr. Stewart, aliado da cortesã e médico do Ditador. Stewart mantém, apesar das suas tendências pedófilas, uma paixão platónica por Eliza quase até ao final do romance, altura em que outros valores e sentimentos menos elevados falam mais alto. A narrativa a cargo da voz de Eliza é constituída pelas crónicas/memórias que descrevem os prazeres da amante do Ditador. Trata-se de uma biografia romanceada contada no tom da mais pura sátira. A forte carga irónica presente no texto denuncia o carácter amargo da personagem. Sobretudo em relação ao sexo feminino, a quem se refere sempre com desprezo, inclusive as mulheres da própria família. As personagens e as situações são estilizadas ao máximo de forma a aparecerem ao leitor como autênticas caricaturas, envolvidas numa atmosfera balzaquiana. O prazer de "La Lincha", como era chamada no Paraguai, é, sobretudo, o da ostentação no sentido de mostrar aos outros a sua superioridade. Ostentação essa que está patente tanto no vestuário, como na decoração e na opulência das ementas quando recebe. O primeiro capítulo, que pode ser considerado como um prólogo, é aquele em que o discurso é mais ousado. Enright mistura com inigualável maestria, a provocação e a inocência ao narrar em vinte passos (ou vinte investidas sexuais de López nas entranhas de Eliza) a forma como os protagonistas se envolveram, projectando alguma luz sobre o escandaloso passado da cortesã. Tudo isto contado num registo tipicamente britânico em que uma cena considerada escabrosa para os latinos adquire a trivialidade do acto de beber uma chávena de chá ou de falar do estado do tempo. O desenvolvimento do romance prossegue, já na América do Sul, com a travessia do Rio Paraná até ao ponto de convergência entre este rio e o rio Paraguai. Em "O Rio" ? Parte I, o clima e a paisagem são descritos ao pormenor num registo marcadamente sensorial. A fauna e a flora inebriam os sentidos, apesar da dureza do clima ? alguns passageiros do barco a vapor, onde viajam Eliza e Solano, não conseguem resistir às febres tropicais ? ao qual Eliza resiste com uma saúde de ferro. O que faz de Eliza uma sobrevivente pertence à casta daqueles que Darwin classificaria de "os mais aptos" aqueles que se adaptam e triunfam nos meios mais adversos... "O Rio" ? parte dois, descreve o estalar da Guerra entre o Paraguai e o Brasil. Está em causa a delimitação das fronteiras e a posse do rio Paraguai ? essencial para efectuar as trocas comerciais entre o Paraguai e o estrangeiro. O cenário de guerra descrito é semelhante ao "Inferno" de Dante. Eliza acompanha o marido. Instala-se numa tenda de campanha, fugindo ao desprezo da família do Ditador, em Asunción. Em "O Rio" ? parte três, a frieza de Eliza é mostrada, mais uma vez, na impassibilidade com que desfruta, de uma chávena de café ou taça de champanhe diante da carnificina que se desenrola a sua frente, facto que serviu para disseminar o boato do seu pseudo-canibalismo. Ao longo, do texto são, várias as referências face às pulsões canibalísticas de Eliza que incorporam algo de fetiche sexual. Na realidade, a única carne humana consumida pela cortesã, é aquela que se destina a satisfazer os seus apetites eróticos, nada tendo a ver com a antropofagia. "O Rio" ? parte 4, recorda o passado remoto de Eliza na Europa como se fosse uma outra vida. Solano López e o filho mais velho de Eliza morrem tragicamente e esta surge despojada de artifícios, de volta ao pó, mediante a dimensão quase que homérica do seu desgosto. Sem o seu protector, a cocotte é alvo da piedade dos que a rodeiam e, mesmo, dos que a não amam, agora que perdeu o seu aspecto majestoso. A sua postura é patética mas ninguém mexe um dedo para a ajudar. Neste capítulo, Autora recorre ao sarcasmo para criticar os regimes totalitários e a postura ditatorial que implica que os fins justificam os meios. Aproveita também para frisar que todo o homem, mesmo o mais poderoso está sujeito à traição. Mas Eliza é uma vencedora. "La Lincha", uma das mulheres mais detestadas da América Latina e da Europa de há século e meio atrás, consegue triunfar revertendo a situação sem ser, apesar de tudo, aceite nas camadas mais puritanas da Alta Sociedade.



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