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18 Poems
(Dylan Thomas)

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http://www.academia.org.br/abl/media/poesia12.pdfA vida curta de Dylan Thomas foi um mar voraz, indomável como as ondas de sua terra natal: País de Gales. Para ele não havia limite. Tudo o que fazia era assinalado por forte luminosidade, mas revelava também carência, autodestruição e um indisfarçável egoísmo. De certa maneira, fazia barulho para chamar a atenção. Gostava de ser visto como um enfant terrible e para imprimir mai veracidade a esta imagem, o poeta vivia rapidamente, aliciado por seus próprios excessos. Isto, no fundo, o divertia.
Aos 11 anos já tinha escrito mais de duzentos poemas. Muito jovem dirigiu o jornal da escola, trabalhou como repórter em Swansea, abrindo logo caminho na BBC de Londres. Era um obssessivo. com a mesma intensidade, produzia e desperdiçava tempo. Refugiava-se nos pubs, consumindo sem medir energia, talento e saúde.
Escreveu roteiros para cinema, fez documentários, participou de movimentos, sinalizou, com seu comportamento, a emergente geração beat. Nos anos de 1950 era uma celebridade. Tinha prazer em ler seus versos em público, sua voz seduzia milhares de ouvintes, atraia novos admiradores; sua irreverência impressionava uma América atônita, em via de transformação.
Dylan Thomas era profundo, um solitário. Como escritor dedicou-se às palavras e compulsivamente, desejava penetrar na alma de todas as letras. Era um apaixonado pela sonoridade e, com estilo incrivelmente pessoal, soube construir uma obra - pequena, é verdade - com nome e sobrenome. O vigor de suas imagens e o ritmo de sua escrita são marcas registradas.
Aos 39 anos, desgastado fisicamente, saboreando a fama e o reconhecimento sem um tostão no bolso, Dylan enefrentava com muitas dificuldades o cotidiano. Em novembro de 1953, o poeta foi longe demais com a bebeida: apósmuitas doses, não resistiu a uma hemorragia cerebral no St. Vicente Hospital, poucas quadras do Chelsea Hotel, sua "casa" em Nova York. O escritor acabou vencido pela boemia, pela ansiedade um tanto juvenil, pela vida nômade e, tragicamente, pelo álcool. Mas deixou um legado indiscutível. Talento do mais puro malte.
Por trás da neblina de suas frases e versos, indiferentes às normas, habita um autor maduro, vivo, do primeiro time da literatura mundial.
 
texto de Maria Amélia Mello, para o livro
Dylan Thomas / Poemas Reunidos (1934/1953),
pela José Olympo Editora com tradução de Ivan Junqueira.



EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA
Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

(tradução: Ivan Junqueira)

.
ESTE LADO DA VERDADE
Para Llewlyn
Este lado da verdade,
Meu filho, tu não podes ver,
Rei de teus olhos azuis
No país que cega a tua juventude,
Que está todo por fazer,
Sob os céus indiferentes
Da culpa e da inocência
Antes que tentes um único gesto
Com a cabeça e o coração,
Tudo estará reunido e disperso
Nas trevas tortuosas
Como o pó dos mortos.
O bom e o mau, duas maneiras
De caminhar em tua morte
Entre as triturantes ondas do mar,
Rei de teu coração nos dias cegos,
Se dissipam com a respiração,
Vão chorando através de ti e de mim
(tradução: Ivan Junqueira)

.
POEMA DE OUTUBRO
Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã
Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.
Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.
Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio No bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.
Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela
E pêlos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.
E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.
Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.
.(tradução: Ivan Junqueira)
.
AMOR NO HOSPÍCIO
Uma estranha chegou
A dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
Uma jovem louca como os pássaros
Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas.
Espigada no leito em desordem
Ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus
Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
Livre como os mortos,
Ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens.
Chegou possessa
Aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
Possuída pêlos céus
Ela dorme no catre estreito, e no entanto vagueia na poeira
E no entanto delira à vontade
Sobre as tábuas do manicômio aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.

E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim
Posso de fato
Suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.
.(tradução: Ivan Junqueira)
.
MORTES E ENTRADAS
Quas



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