1984
(George Orwell)
Trocando-se os últimos dois dígitos do ano em que Orwell escreveu seu romance, ele nos apresenta um título para sua utopia que hoje em dia está mais conectada a Ronald Reagan, Gorbachov, ou os velhos tempos em geral: 1984. Onde Orwell via governos totalitários, nós procuramos espiões, onde ele colocava personificação de políticos, o grande irmão, nós vemos mercados autônomos e economias globalizadas. Ainda podemos gostar de 1984, no entanto? Orwell nos oferece uma vista de sobre os ombros de Winston, para assistir como ele entra e sai do edifício de escritórios, manipulando a história. Como um jornalista da utopia, Winston nos mostra que o seu trabalho é mudar a História passada, presente e futura, dia após dia. Atrás dele, o onipresente observador. O Grande Irmão vive na tela, em toda rua, em toda esquina, em toda habitação. Ele nunca é realmente visto ou ouvido, embora sua voz esteja em todos os ouvidos e sua imagem seja uma constante lembrança de sua incessante vigília. Winston tem azar o suficiente para ter um canto escondido no seu quarto para escrever um diário. Somente assim ele constrói em si mesmo uma essência como contrapeso à mutação diária das verdades do mundo. Ele passa a questionar o que o cerca. Acaba num relaciomento amoroso que culmina numa proibida relação sexual. Mas eles são pegos. O torturador aparentava antes ser um bom amigo de Winston no longo caminho ao paraíso. Testemunhamos como a realidade de Winston desmonora gradualmente, e com ela, nosso último fio de esperança. Winston deita-se para se livrar da dor, confessa tudo, mas eles não deixarão que ele morra. Como fingir que ama o Grande Irmão não é o bastante, Winston termina por amá-lo realmente. Enquanto Huxley testa drogas, Orwell concentra-se em redes de comunicação. E é nisso que reside nosso último interesse em 1984. À luz das exibições televisivas, interconexão global e direitos individuais restritos devido a ameaças terroristas, 1984 aparenta ser ainda mais atual do que foi no ano de 1984. Logo, podemos dizer que o escopo de Orwell era mais amplo do que ele imaginou. Certamente, estamos felizes que na complexidade atual, a organização descentralizada aparenta ser a única forma de estruturar a vida social. Ainda assim, para muitos, ser potencialmente observado ainda é ser observado. Mas sejamos francos: as boas e velhas teorias da conspiração ainda conseguem nos encantar. A sua simplicidade nos convida a fixar no lado ruim da dicotomia. Elas nos permitem usar o impessoal "eles" para explicar as coisas. Política vista desse ângulo toma a forma de batalhas retóricas sobre a definição do bem e do mal. Mas pelo menos eles ainda estão batalhando. Isso alivia a paranóia criada pelo estilo cativante de Orwell. Ainda que Winston use um vocabulário muito particular para explicar as coisas, ainda vemos o seu ser atrás das palavras. Ele escreve sobre um contexto comum e preenche com um tom emocional que captura o leitor imediatamente. O mesmo tipo de tom que eu descobri lendo "Um pouco de ar, por favor". É preciso equilibrar-se entre esperança e desespero para seguir os passos dos protagonistas de Orwell. Mas, estranhamente, terminamos a leitura dos seus romances e não nos sentimos assustados ou deprimidos. Ao contrário: ele nos mostra que nossas vidas não podem ser tão ruins e ainda valem a pena. Depois de 1984, o mundo continua o mesmo, mas nós estamos mais conscientes.
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