2000 Anos De Cristianismo Em África
(John Baur)
John Baur marca o início da caminhada do Cristianismo para África, no acto de conversão e baptismo, por acção do apóstolo Filipe, do funcionário da rainha da Etiópia, referido no livro dos Actos, por volta do ano 36 (o ano 62 é o da fundação da primeira igreja cristã em África). A partir de então, esta história foi escrita por missionários, políticos, sertanejos, negociantes, aventureiros, guerreiros, feiticeiros, reis e convertidos, homens e mulheres, que tenazmente lutaram, viveram e morreram ora pela divulgação da Boa-Nova, ora pela conquista e expansão de influências e ganhos, ora na defesa dos seus espaços contra a intrusão abusiva, dissimulada ou sub-reptícia, de estranhos olhares e vontades. A implantação do Cristianismo neste Continente, iniciada desde o Norte, teve o seu maior incremento na acção do Patriarcado de Alexandria que garantiu, durante longos anos, a penetração até à Abissínia, sustentando-a de missionários e, não poucas vezes, socorrendo-a com as armas. Quando o Crescente chegou à Etiópia (640), encontrou um Cristianismo tão disseminado que os seus habitantes eram descritos como «um povo humilde de padres e monges». Depois da implantação do Islão e recuo do Cristianismo, foi, ainda, a partir do Norte que continuou a ser alimentado o fio da fé cristã que, teimosamente, avançava pelo deserto e mantinha as comunidades do Leste, até bem perto do Equador. De 697 a 1270, o reino cristão da Núbia garantia a fé de Cristo, desde Assuão até ao Nilo Azul, e, de 1270 a 1527, foi a Etiópia que sustentou o facho cristão. Com a deterioração das relações, entre cristãos e muçulmanos, essas comunidades foram ficando isoladas, mas, delas, chegavam ecos persistentes de pedido de ajuda. Durante o século XV, Portugal foi quem mais prestou atenção a esses nebulosos rumores, onde o mito e a história se confundiam. Pêro da Covilhã, por terra, e Vasco da Gama, por mar, cumpriram o propósito de trazer notícia dessas terras cristãs, conhecidas, então, por Terras do Preste João. A partir de 1500, o contacto missionário com a costa de África, a conversão do reino do Manicongo, a acção do seu rei Afonso e do filho, o bispo Henrique, fizeram alastrar o Catolicismo com efeitos que se prolongaram por mais de trezentos anos, e, um século depois, a conversão do Monomotapa, fizeram sonhar alguns «apóstolos da facilidade» com a grande reunião a Roma da Etiópia e a definitiva conquista da África para o Cristianismo. A incapacidade de uma análise profunda dessas sociedades, aliada a comportamentos de pretensa superioridade rácica e de predestinação civilizacional, terão comprometido muitas das «boas intenções» dos primeiros contactos. As «fricções, destruições e reconstituições sincréticas entre diferentes interesses, representações e legitimidades», aliadas a avanços missionários apoiados por malhas de relações onde nem sempre se distinguiam com clareza os campos do comércio e os da fé, e em que, não raras vezes, os próprios agentes e a sua acção se confundiam, conduziram, frequentemente, a desfechos imprevisíveis, com recuos difíceis de compensar e custos muitos elevados. Durante toda a segunda metade do séc.XVIII e séc. XIX, chegaram a África, em diversas fases, os primeiros cristãos, protestantes. Eram populações oriundas da América, de origem africana, que o fim da escravatura tinha liberado e que foram, pela Inglaterra, literalmente despejadas na costa ocidental. Tal como os seus antepassados, desenraizados e vendidos como escravos para as grandes plantações americanas, estes «regressavam», num processo de duplo desenraizamento, a uma terra que não conheciam e para um clima adverso. Os que resistiram fixaram-se nos novos países da Costa da Guiné. Eram essencialmente Baptistas e Metodistas, a que se foram juntando, pouco a pouco, os missionários europeus. Mais tarde, surgiram outras confissões cristãs, que cruzaram toda a África, juntando ao labor missionário o da investigação científica, por exemplo, Livingstone, Stanley e Junod. Os séculos XIX e XX foram, de facto, os grandes séculos de implantação missionária, que atingiu não só as terras da costa, mas também o interior. Toda esta acção, no entanto, foi favorecida por razões bem diferentes das causas evangélicas. Ela beneficiou do «boom» expansionista europeu do séc. XIX, ávido de garantir as fontes das matérias-primas, e que, para o efeito, em 1885, se limitou a dividir o Continente, a «régua e esquadro», atingindo populações cujas culturas se regiam por lógicas de geografia humana. O resultado foi a marcação artificial de fronteiras, com desequilíbrios de diversa ordem e consequências que, depois das independências, conduziram a focos de tensão e guerras fratricidas, com saldo de milhões de mortos, estorpiados e deslocados. O autor deixa-nos o relato histórico de um caminho de sucessos e muitos insucessos. Percebe-se a preocupação do autor em demonstrar ao leitor, no entanto, como as linhas, que conduzem esta história, parecem determinadas a alcançar um final de esperança. A sua perspicaz leitura dos factos, acrisolada por meio século de vivência em África, efectivamente, ajuda à compreensão das, frequentemente, explicitadas expectativas das inúmeras comunidades cristãs que emergiram no último quarto do século passado. A história do Cristianismo em África é composta de todos estes ingredientes, que, não fosse a impossibilidade de se olvidar o hediondo período do comércio esclavagista, talvez não deixasse de ser o relato de um peculiar período de relações e inter-relações, de descobertas e de vivências, com as naturais contradições da natureza humana. Yur Arievilo
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